Sabrina Noivas 60 - Stolen Bride

Um demnio salvador! No altar, vestida de noiva, buque nas mos, Carla percebe que no ama Lucas Finzi e resolve no se casar com ele. Desesperada, no sabe o que fazer. Mas a ajuda de que tanto necessita vir de 1 fascinante desconhecido que vai mudar toda a sua vida. Finn Cormac caminha pela igreja lotada de convidados e oferece 1 chance a Carla: ela pode se casar com 1 homem de carter duvidoso e de atividades suspeitas ou permitir que 1 completo desconhecido a roube do altar, no dia do seu prprio casamento. A opo est nas mos dela!

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1997. Gnero: Romance contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida


CAPITULO I

Comparada ao calor que fazia l fora, a tem-' peratura do interior da igreja estava muito agradvel. Mas o arrepio que Carla sentia, nada tinha a ver com a temperatura.
Mais uma vez, ela deu uma olhadinha, com os cantos dos olhos, para o homem de terno que se encontrava em p ao seu lado e, em seguida, para o vestido de seda que usava. Em poucos momentos estaria casada com um homem que sabia no amar e nada podia fazer quanto quela situao. Agora no dava para voltar atrs.
Atrs dela, Carla bem o sabia, a igreja estava lotada com duas famlias que aguardavam, ansiosas, o momento que coroaria a unio entre os dois. Uma maneira, na opinio de Carla, muito medieval de se encarar um casamento. Mas era assim que tudo funcionava naquela parte da Itlia, especialmente quando se tratava de muito dinheiro envolvido.
Nervosa, ela esfregou uma mo na outra. O que o padre tinha acabado de dizer?
Ao seu lado, compenetrado, Lucas prestava muita ateno no que o padre dizia. De repente, o pescoo do noivo, vermelho por causa da barba recm-feita, a fez lembrar de um peru que, uma vez, seu tio havia matado. Carla, ento, tentou olhar para outro lugar.
No altar, assim como no resto da igreja, velas imensas tinham sido acesas.
Essas velas, alm de grandes, devem ter a espessura dos meus braos", ela concluiu em pensamento.
E havia tambm um cheiro penetrante de incenso que tomava todo o ambiente.
"Por que essa sensao terrvel no me abandona? Tenho a sensao que estou num funeral. E esse deveria ser o dia mais feliz da minha vida!"
Ela deu uma nova olhada para o noivo. Os dois se conheciam desde criana. Tinham crescido juntos e Carla sempre o havia tratado como um irmo que nunca tivera. A, num belo dia, Lucas sugeriu que os dois se casassem. No incio, Carla havia adorado a ideia. Como jamais fora incentivada a seguir uma carreira, o fato de vir a se tornar esposa de um homem importante como Lucas lhe parecera muito glamouroso e a deixara profundamente lisonjeada. Afinal, entre tantas mulheres, tinha sido escolhida por ele.
"Fui uma idiota! Uma verdadeira idiota!"
Carla mordeu o lbio inferior e tentou prestar ateno no padre. Mas ela s via a boca do religioso se mexer, e nada do que ele dizia parecia fazer sentido: eram apenas palavras desconexas.
" isso mesmo! Fui uma grande idiota. E, como sempre, ingnua. Deveria ter imaginado que Lucas me escolheu apenas pensando em interesses financeiros. O meu tio  um dos homens mais poderosos nesta parte da Itlia e o casamento comigo seria muito conveniente."
Porm, o fato de s ter descoberto h poucas semanas que no era amada por Lucas, no a deixara to infeliz como seria de se esperar.
"Por qu? Por que isso tinha que acontecer logo comigo? E, para piorar essa situao absurda, na noite passada descobri que Lucas tem uma amante. E tenho quase certeza que a amante dele est agora l atrs na igreja." Carla mordeu de novo o lbio inferior. "No, eu tenho que me controlar! No posso me virar para ver se ela veio mesmo assistir ao casamento."
O padre continuava a falar. Carla, ento, notou que o religioso tinha um pequeno corte ao lado da boca.
"Ele tambm deve ter se barbeado antes de vir fazer o casamento."
Alheia ao que acontecia ali no altar e sentindo-se asfixiada, demorou alguns segundos para que Carla percebesse que o padre estava lhe fazendo uma pergunta.
"Acho que agora  que devo dizer sim. Mas no quero dizer sim. Ou ser que quero?", ela se perguntava em pensamento. "No, definitivamente, eu no quero dizer sim."
O padre voltou a lhe fazer a mesma pergunta.
Insegura, Carla olhou para o tio Pancrzio  procura de apoio e recebeu dele apenas um sorriso de felicidade. Mais uma vez, Carla virou a cabea e olhou para Lucas, e recebeu do noivo um olhar penetrante, glido. E aquele olhar foi o incentivo de que tanto estava necessitando.
Carla balanou a cabea em negativa e disse, num sussurro:
	No.
Ser que todo mundo ouvira o que tinha acabado de pronunciar? Ser que tinha dito mesmo no?
Tensa, Carla amassou com a mo direita uma parte do vestido e voltou a repetir, agora num tom de voz mais audvel:
	No.
O silncio que se fez na igreja foi sepulcral. Muito intimidada, voltou a olhar para Lucas e se forou a dizer:
	Sinto muito, mas no posso me casar com voc. Pensei que iria acabar me apaixonando mas, infelizmente, isso no aconteceu. Por favor, no fique bravo comigo. Tenho certeza que um dia ainda vai encontrar...
	Continue com a cerimnia  Lucas pediu ao padre, impedindo que Carla terminasse a frase.
O padre olhou para Carla, depois para os presentes na cerimnia, e deu a impresso  Carla que estava para atender ao pedido do noivo. Indignada, ela se voltou para os seus familiares e disse ao tio Pancrzio:
	O senhor tem que parar com isso. No amo o Lucas e, portanto, no posso continuar com uma farsa como essa.
O tio a fitou por um longo momento. E quando resolveu se manifestar, se dirigiu ao noivo, no  Carla:
Ela est muito nervosa.  Em seguida, o italiano falou com o padre. isso! Ela est muito nervosa. Vamos continuar.
Carla, mais indignada que nunca, olhava para o tio. Naquele instante, Lucas a segurou pelo pulso, a puxou para junto de si e disse entre os dentes.
	Voc me paga! Vai me pagar direitinho por me fazer passar uma vergonha to grande. Eu...
	Vamos parar logo com isso!  Lucas tinha sido interrompido por uma voz forte de homem.
Carla, ainda presa pelos dedos fortes do noivo, virou-se e viu todos os convidados olhando para um homem que se encontrava sozinho na parte lateral da igreja. Ele era alto, bem mais alto que Lucas, tinha os cabelos castanhos, e olhos de um azul profundo. Todos ali presentes pareciam hipnotizados pelo desconhecido.
O noivo, no contente em t-la presa pelo pulso, a puxou mais para junto de si e perguntou:
	Quem voc pensa que  para interromper o meu casamento? Com que direito ousou fazer uma coisa dessa?
As perguntas ecoaram na igreja e morreram junto ao silncio dos convidados. Todos esperavam por uma resposta.
Carla, apreensiva, tambm prestava ateno no desconhecido. E, quando seus olhares se cruzaram, ela sentiu um ligeiro tremor percorrer-lhe o corpo. Foi naquele instante que o homem falou em alto e bom som:
	Eu tenho o mais antigo direito do mundo! Acontece que esta mulher  minha esposa!
Ao ouvir aquilo, Carla teve a sensao que seu corao iria sair pela boca. E viu que Lucas a fitava pasmo. Carla, ento, olhou para o cho, pois sabia se fitasse o noivo de novo, ele descobriria toda a verdade.
O estranho, que ousara enfrentar aquela comunidade toda feita de parentes e amigos, se aproximava devagar no altar. Quando se aproximou mais, Carla pde notar que os cabelos dele eram bem mais claros do que imaginara. Mas os olhos eram, sim, de um azul estonteante. Muito elegante, usava uma cala de linho azul-claro e camisa num tom de azul mais escuro que a cala.
Carla olhou mais uma vez para aqueles olhos belssimos e notou que o estranho, de uma certa maneira, a desafiava a dizer a verdade. Mas, apesar de tudo, algo lhe dizia que precisava confiar nele.
O estranho chegou ao lado de Carla e, sem nenhuma resistncia de Lucas, tomou as mos delicadas entre as suas e disse:
Vamos, querida.
Carla jamais poderia imaginar que um dia suas mos poderiam se encaixar to bem em mos desconhecidas. Ento, com uma sombra de um sorriso nos lbios, deixou-se levar. Em poucos segundos, sob mil olhares atnitos, os dois comearam a percorrer o corredor central da igreja. Quando j estavam na metade, o tio dela gritou:
	 mentira! Isso  mentira! Uma farsa! Mas  claro que ela no  casada!
Carla parou, voltou-se para o tio e fez de tudo para que sua voz fosse emitida num tom audvel e convincente, apesar da mentira:
	 verdade. No ltimo vero...
	Vamos sair daqui  o estranho a interrompeu e fez com que ela continuasse caminhando em direo  sada.
	No ltimo vero, no ?  A voz do tio ecoou.  Sua infiel! Desnaturada! Vou matar vocs dois!
	Corra!  O estranho a puxou e, segundos depois, os dois corriam pela rua de paraleleppedos em frente  igreja.
 Mais depressa! Tem um matador l dentro.
Carla se livrou dos sapato e, enquanto corria, o estranho retirou do bolso um molho de chaves e olhou para trs.
	Quem so aqueles brutamontes?  ele perguntou.
Ainda correndo, Carla olhou para trs e disse:
	So os guarda-costas do meu noivo e do meu tio.
	Venha!  Os dois viraram uma esquina. Em seguida, ele abriu a porta do carro para que Carla entrasse, correu para o volante e ligou o carro.  No se esquea do cinto de segurana. Vou ter que correr muito para conseguir fugir. Esses brutamontes so bem capazes de comear a atirar.
Durante muitos e muitos quilmetros os dois permaneceram em silncio. O estranho, bastante tenso e atento  direo, corria muito e frequentemente olhava pelo espelho retrovisor.
Carla, por sua vez, no conseguia controlar o tremor que havia se apoderado do corpo. O que na realidade estava acontecendo? Ser que estava vivendo algo real, palpvel? Aquilo mais parecia um... Ela balanou a cabea e desistiu de querer descrever o que estava acontecendo. Seu crebro parecia que tinha derretido. Portanto, era impossvel pensar ou analisar qualquer coisa de maneira coerente. Mesmo assim, resolveu beliscar a mo. Se estivesse sonhando, na certa iria acordar.
Dentro do carro fazia muito calor e o sol incidia direta-mente sobre os olhos dela. Piscando muito, moveu um pouco as pernas e sentiu contra a pele a maciez da seda do vestido. Definitivamente aquilo no era um sonho!
Com os cantos dos olhos, observou o estranho. O que, afinal, ela tivera a coragem de fazer? O estranho poderia ser algum bandido. Um bandido do qual seu tio e Lucas viviam se protegendo e, para isso, necessitavam dos guar-da-costas. E ela, sem mais nem menos, resolvera fugir com ele. Uma vez, o noivo a chamara de estpida. Carla havia reagido, feito um escndalo. Mas, diante das circunstncias, comeava crer que Lucas tinha uma certa razo.
Os dois percorreram mais alguns quilmetros. A, ento, Carla, resolveu virar a cabea e encarar o homem que se encontrava ao seu lado. Perguntou:
	Quem  voc?  E, no esperando por resposta, continuou:  Por que fez isso? Para onde est me levando? Voc est me raptando?
O estranho ergueu uma das mos que segurava com firmeza a direo. Carla, instintivamente, se afastou, com medo de ser agredida, da mesma maneira que Lucas a agredira um dia. Mas aquele tinha sido apenas um gesto para indicar-lhe que se acalmasse.
	Meu nome  Finn Cormac  o estranho finalmente disse.
"Ingls. Est falando em ingls comigo. E como sabe que eu iria entend-lo? E o que isso significa? H muitos e muitos anos, pelo menos aqui na Itlia, ningum se dirige a mim nesta lngua."
Apesar de assustada, Carla gostou de ouvir Finn Cormac falar em ingls, o idioma de sua infncia, que jamais esqueceria. O ingls tambm era o idioma usado na ltima escola que frequentara, uma escola que preparava as moas para o casamento, e de onde havia sado quando estava com dezoito anos. E tinha sido nessa escola que Carla gozara um pouco de liberdade.
Carla voltou a encar-lo e se perguntava o quanto, na realidade, aquele desconhecido, que dizia chamar-se Finn Cormac, sabia sobre ela.
	Mas quem...  Carla iniciou uma frase e foi interrompida:
	No.  Ele voltou a erguer a mo.  Se comear a falar, paro o carro e deixo voc na estrada. Agora no  hora para perguntas.
Atnita, Carla voltou a ficar calada. No, ele no parecia um raptor. Mas tambm ela no podia dizer qual seria a aparncia de um raptor. Jamais vira um na vida.
"Alm disso, esse homem no iria me raptar no altar, em frente a todo mundo. No, ningum chegaria a tanto. S um louco, no um profissional, se arriscaria tanto e desafiaria a ira de duas famlias to importantes e poderosas!"
Finn continuava correndo muito e, vez ou outra, olhava pelo retrovisor. Mil dvidas passavam pela cabea de Carla.
"Mas ele tem razo, agora no d para ficar fazendo perguntas!"
Apesar da concluso que havia chegado, depois de alguns minutos, ela no resistiu:
	Meu nome  Carla Gambini.
	Eu sei  ele disse apenas.
"Ele sabe quem sou eu. E eu no tenho a menor ideia de quem ele seja. Isso no  justo. Bem, no d para ficar pensando agora no que  ou no justo!" Carla olhou para o lado e viu rvores muito frondosas e grama muito verde. "O que ser que aconteceu l na igreja? Meu tio deve estar furioso. Nunca ningum o afrontou tanto. Quando sa do altar ele estava branco como cera. Tenho certeza de que nunca pensou que eu fosse capaz de tamanha loucura." Voc acha mesmo que o Lucas vai vir atrs de mim?
apreensiva, ela perguntou.
	E voc ainda tem alguma dyida? Estamos na Itlia!
"Mas que pergunta mais idiota.  claro que Lucas vai vir atras de mim. Nenhum homem italiano suportaria tamanha humilhao. E pode at ser que ele me ame. Apesar da amante, e do jeito dele, pode at ser que Lucas me ame. S tenho medo e ter feito uma grande besteira. Uma besteira irreparvel!"
O carro continuava em alta velocidade pela estrada cheia de curvas.
"No, Lucas no me ama. Eu apenas seria um grande negcio para ele!"
	Ele no me ama  Carla se ouviu falando em voz alta, achando que Finn fosse contradiz-la.
	Acontece, querida, que voc  propriedade dele. Alm disso, feriu o orgulho de um legtimo italiano.
Aquele comentrio fez com que o nervosismo de Carla aumentasse. E, por alguns segundos, sentiu uma imensa dificuldade para respirar.
No, no era fcil ouvir de um completo estranho aquilo que s ela pensava saber e detestava: Lucas a considerava apenas mais uma de suas propriedades. Uma propriedade valiosa, com certeza, mas apenas uma propriedade. Nada mais que isso!
Mas quem afinal era esse homem que estava sentado ao lado dela?
	Talvez... se Lucas nos encontrar, ele resolva no machucar voc. Bem, isso quando eu lhe explicar...
	Ouvi voc tentando se explicar l no altar e, pelo que vi, o seu noivinho no parece muito interessado em explicaes.
	Bem, Lucas  muito explosivo e tem o sangue quente.
	Eu tambm. Eu tambm tenho o sangue muito quente.
Finn diminuiu um pouco a velocidade do carro, entrou  direita e, em seguida, pegou uma rodovia bem maior do que a que estavam acabando de deixar. Quando Carla pensou que ele fosse voltar a acelerar, Finn voltou a diminuir a velocidade do carro e entrou numa estradinha  direita cheia de buracos. Aps terem rodado uns dois quilmetros, Carla se viu diante de um imenso bosque. Com muito cuidado, Finn seguiu em frente por entre as rvores e, depois de percorrer um bom trecho, parou e desligou o veculo.
	Bem,  aqui que vamos ficar at escurecer. No quero correr nenhum risco. Tenho quase certeza que ningum nos seguiu at aqui.
	Muito obrigada pelo que fez por mim. Mas eu gostaria de saber...
	No me agradea  Finn a interrompeu.  E se ainda no percebeu, voc est numa grande enrascada.
	Sei que estou numa grande enrascada, mas a enrascada ainda seria maior se eu tivesse me casado com o Lucas.
	Bem,  voc quem est dizendo isso. E eu acredito.
	Mas, afinal, quem  voc? Ser que ...  Carla resolveu parar a pergunta na metade e fazer uma outra: 
Voc  um daqueles homens que quer se vingar a qualquer preo do meu tio?
Finn a fitou por alguns instantes e, depois de refletir um pouco, respondeu:
	No. E antes que resolva me fazer essas perguntas todas que esto na sua cabea, quero que saiba que no estou disposto a falar sobre mim. Voc  uma mulher muito corajosa, sabia, Carla Gambini?
	Eu?  ela perguntou espantada.  corajosa?
	Sim, senhora. No a conheo, mas sei o quanto foi sria essa atitude de fugir da sua famlia.
	Eu no queria fugir da minha famlia. Eu queria fugir do Lucas.
	E existe alguma diferena entre uma coisa e outra?
Carla, baixou o olhar, sem saber como responder quela pergunta.
	Bem  ele continuou , tem alguma ideia do que quer fazer agora? Talvez voc tenha um plano.
	Um plano?  Carla o fitou espantada. Nunca na vida pensara em fazer planos. Tudo na vida dela tinha sido decidido por outras pessoas. Pela primeira vez se via pensando seriamente no futuro. E o futuro, naquele momento, lhe parecia sem a menor perspectiva.
Carla deu um profundo suspiro e fitando intensamente aquele par de olhos azuis, perguntou  queima-roupa:
	E voc? Voc tem algum plano?
	Inmeros. Tenho inmeros planos. Mas ele foram feitos antes de eu assistir ao seu casamento. E nenhum desses planos incluem uma noiva fugitiva, que est sendo procurada por um batalho de matadores.
Carla mordeu o lbio inferior e perguntou atnita:
	Quer dizer, ento, que no tem a menor ideia do que ns vamos fazer?
	No.
Ao ouvir aquela resposta, Carla sentiu que estava perdida. Mas ela queria o qu? Afinal, seguindo um impulso,
havia fugido do altar, seguindo um desconhecido que dizia ser seu marido. Agora, tinha que aguentar as consequncias do seu ato impensado.
	Tudo bem.  Ela levou a mo para a maaneta da porta.  Vou sair j do seu caminho.
Finn, ao contrrio do que Carla esperava, a segurou pelo brao e no deixou que ela sasse do carro.
	Vamos comear tudo de novo. Me diga: existe algum lugar para onde possa ir e se sentir protegida, algum lugar onde o seu noivo no a encontre?
	S existe a casa do meu tio.
	Seu tio...  Finn duvidou.
	E. Acho que se for para l e conversar seriamente com ele, dizer que no amo o Lucas, dizer que estava muito nervosa, ele  capaz de me ouvir.
	Ser?  ele mais uma vez duvidou.
	Tenho certeza que o meu tio quer o melhor para mim.
	Sei...  Finn disse com um jeito irnico.
	Quem voc pensa que  para ficar julgando assim a minha famlia?  Carla explodiu.
	Digamos que sou um observador do comportamento humano.
	Um observador do comportamento humano. Essa  muito boa!  De repente, Carla se lembrou de algo e quis saber:  Como  mesmo o seu nome?
	Finn.
	Cormac!  ela exclamou apavorada.  Finn Cormac!
Deveria ter imaginado. Eu conheo voc. Tambm conheo o que andou escrevendo sobre a famlia do Lucas. Voc ganhou milhes sujando o nome dele. Voc...
	Acho bom parar com isso. Em primeiro lugar, jamais escrevi uma palavra que no fosse verdadeira. Lucas est a um passo de ser preso e, tenho certeza, vai passar um bom tempo atrs das grades. Em segundo lugar, mereci cada centavo que ganhei com a publicao daquele livro. E a famlia do seu querido Lucas passou os ltimos trinta anos extorquindo todo tipo de gente. E foi exatamente por isso que se tornou rica e poderosa.
	Isso  mentira!
	Se voc quer pensar assim...  Ele deu de ombros. 	Se quer continuar achando que o seu noivo  um santo, o problema no  meu. S estou querendo saber o que est pretendendo fazer da vida.
Carla sentiu que lgrimas afloravam aos seus olhos.
	Estou pretendendo voltar para casa.  Ela abriu a porta do carro.
	Quer dizer, ento, que est querendo voltar para casa? 	Existia uma espcie de desafio no tom de voz de Finn.
	Estou.
	Para se casar com Lucas. Acertei?
	E o que mais posso fazer? No tenho mais ningum na vida: s a minha famlia.  Ela comeou a soluar.  Lucas no pode ser to ruim assim.
	No posso acreditar que esteja tendo esse tipo de conversa com uma mulher, em pleno final do sculo vinte. Voc
no  uma mulher independente?
	Eu? Uma mulher independente?  Os soluos dela aumentaram.  Com a famlia que tenho? Como posso ser independente? No tenho dinheiro, no sou qualificada para nada, exceto... para casar, ser dona de casa e me de muitas crianas. Talvez, se tivesse nascido e crescido em outro canto qualquer do mundo, agora estaria apta a dirigir um imprio qualquer, como acontecem com as heronas desses filmes que passam na televiso. Mas eu nasci aqui e nada posso fazer para mudar essa situao.  Me desculpe, no deveria ter feito uma observao to desastrosa. Sei que tenho tido uma vida cercada de proteo, mas isso nunca tinha me incomodado at o momento que me vi com Lucas no altar.  Ela limpou as lgrimas com um leno que Finn lhe estendeu.  Para ser sincera, no incio at gostei da ideia de me casar com ele. Como uma tonta, fiquei imaginando a bela casa que iramos morar, as festas, as roupas.... os filhos que iria ter. A, com o passar do tempo, percebi que tudo o que eu fantasiava era muito bonito, s que em nenhum momento, nessas fantasias, eu via Lucas
ao meu lado. Muito ingnua, achei que esse detalhe no tinha a menor importncia. A, outro dia, uma amiga brincou comigo sobre a minha noite de npcias. Para mim foi um choque imaginar que depois do casamento e da festa, teria que ir para a cama com ele. Voc pode estar achando que sou meio avoada, mas demorou para eu conseguir encarar a realidade. Acontece que Lucas sempre esteve presente na minha vida. S que jamais consegui imagin-lo como meu marido.
De repente, Carla se viu chorando copiosamente.
"Por qu? Por que fui me abrir dessa maneira com esse homem? Deveria ter sado desse carro e ido embora!"
Finn, devagar, tomou-lhe uma das mos e a levou aos lbios.
	O que voc est fazendo?  ela perguntou, depois que Finn j tinha beijado-lhe a mo.
	Nada, apenas segui um impulso.  Ele olhou para frente.  Mas no me parece muito apropriado beijar a mo da mulher que est atada a Lucas Finzi.
	Tambm acho que no  ela disse, sem pensar. Aquele beijo a deixara bastante confusa.
Um pesado silncio se instalou entre os dois. Mas Carla precisava continuar falando, nem que fosse qualquer coisa:
	Tem sido muito difcil. Se fosse uma mulher independente, talvez eu pudesse ir para a Inglaterra. Minha bab era inglesa e o meu tio sempre dava muito ateno ao que ela falava. Ele sempre dizia que Sarah era uma pessoa muito ajuizada. Talvez se eu a procurasse, Sarah pudesse conversar com ele.
Vendo que Finn no havia feito nenhum comentrio sobre aquela considerao, Carla quis saber:
	Qual  o problema? No achou que  uma boa ideia?
Finn continuou em silncio.
	O que foi que aconteceu?  ela se exasperou.  Ser que no ouviu o que eu disse?
	Ouvi  Finn respondeu de maneira seca.  Ouvi e no gostei.
	No gostou? Por qu?
	Olha aqui, mocinha, vamos direto ao assunto: ns estamos fugindo da Mfia. A, de repente, voc acha que seu tio vai ouvir uma velhinha que hoje deve passar o dia inteiro resmungando, se queixando da vida, com suas agulhas de tric. O que foi? Ser que enlouqueceu?
	"Velhinha? Sarah, uma velhinha? Esse homem no sabe do que est falando! Hoje, no mximo, Sarah deve estar com cinquenta anos. E tenho certeza que no aparenta quarenta. Nunca vi na minha vida mulher mais elegante que ela."
	Voc est extrapolando  ela disse.
	Eu, extrapolando? S me faltava ouvir isso! Algum dentro desse carro enlouqueceu e posso lhe assegurar que no fui eu. Acho que voc ainda acredita em contos de fada, Carla Gambini.
	Tudo bem, vamos voltar!
	O qu?  Ele a fitou espantado.
	Vamos, ligue esse carro e me leve de volta para a igreja.
	Voc enlouqueceu mesmo> moa.
	Isso  o que voc acha. No que me diz respeito, tenho certeza que gozo plenamente das minhas faculdades mentais.
	No parece.
	E Sarah tambm: ela tambm goza plenamente de suas faculdades mentais. E  a nica pessoa que poderia conversar com o meu tio.
	Duvido.
 Pois no duvide!  Carla gritou.  E duvido que ela faa tric.
	Acho melhor esquecer essa sua bab. No existe mais ningum que conhea?
	No, no existe mais ningum. E ela  a minha nica chance.
	E por que ela no apareceu para o casamento?
	Meu tio me disse que Sarah estava meio doente.  Carla deu um profundo suspiro e perguntou:  Voc me emprestaria dinheiro para eu comprar uma passagem de avio at a Inglaterra?
	E voc acredita que possa entrar num avio sem antes ser barrada pelos homens de Lucas?
	Ser?  ela duvidou.
	Pode ter certeza que, dessa maneira, voc jamais chegaria ao aeroporto. Mas acho que posso resolver essa situao.
	Como?  ela perguntou, aflita.
	Estou indo para a Inglaterra. E posso lev-la comigo.
	Como? No seu carro?
	Isso mesmo.
	Mas, a, eu iria sozinha com voc daqui at l?  Carla estava muito preocupada.
	E voc tem uma outra opo? Se tiver...
	Mas isso no fica bem.
	Ento, eu posso deix-la na estrada, quando escurecer, e voc volta para o seu santo noivo.
	Assim? Vestida de noiva?
	At que voc est muito bonita.
	Obrigada  ela agradeceu bastante sem graa.  Mas no era isso que estvamos discutindo.
	Mas  claro que no.  Ele deu um leve sorriso.  Estou indo para a Inglaterra e lhe ofereci uma carona at l.
	No estou gostando nada disso. Voc est querendo...  Carla, sem coragem para terminar, interrompeu a frase.
	Vamos, continue  Finn a desafiou.
	No, no quero continuar nada.
	Pelo que pude entender, est achando que lhe ofereci a carona s para poder ir para a cama com voc.  isso?
Ao ouvir aquilo, o corao de Carla disparou dentro do peito. Mesmo assim, de maneira agressiva, ela resolveu ir em frente:
	O que mais posso esperar de um tipo como voc?
	E voc aceitaria?  ele a provocou.
	Quem est pensando que eu sou, hem?
	Uma mulher sem perspectiva, que est morrendo de medo de comear a viver.  isso que eu penso que voc . E pode ter certeza que nem me passou pela cabea a hiptese de lev-la para a cama.
	Isso eu duvido. Os homens so todos iguais.
	Essa  uma das frases que mais detesto, sabia?
	Mas  claro que voc tem que detestar.  uma frase muito verdadeira!
	Estou achando que  voc quem est pensando em me levar para a cama.
Ao ouvir aquilo ela ficou chocada.
	No admito, Finn Cormac! No admito que fale comigo desse jeito!
	E eu tambm no admito que fale comigo nesse tom abusado, garota. Portanto, vamos parar com isso. E saiba: no sou um cafajeste.
	Pode no ser um cafajeste, mas no fao a menor ideia do tipo de homem que . S um desmiolado tira uma noiva do altar e foge com ela.
	No se esquea que poderia ter se negado a me seguir. E me diga uma coisa: quem fez de voc uma pessoa assim to desconfiada? Sua famlia?
	Isso no  problema seu. No quero falar sobre esse assunto.
	Tudo bem, vamos ento mudar de assunto: voc vai ou no para a Inglaterra comigo?
	O que eu vou ter que lhe dar em troca?
	Informaes. Apenas informaes. Estou escrevendo um novo livro e, pelo que pude perceber, s voc poder me fornecer algumas informaes que estou precisando.
	Est falando com a pessoa errada, sr. Cormac. E o senhor est redondamente enganado no que diz respeito a minha famlia.
	Eu assumo o risco.  Finn deu de ombros.   s me dizer o que sabe.
	Mas eu no sei nada, acredite.
	No gostaria de perder essa chance...  Ele parecia no ter dado a menor importncia ao que Carla tinha acabado de afirmar.  Bem, eu a levo para a Inglaterra e, quando chegarmos l voc me conta tudo que sabe.
	Mas acabei de dizer que no sei nada!
	Alguma coisa voc deve saber. Como ? Aceita ou no a minha proposta?
	Quanto tempo a gente vai demorar para chegar de carro na Inglaterra?
	Talvez uns quatro dias, ou um pouco menos.
	Tudo isso? E eu vou ficar esse tempo todo com voc? No vai dar. No sei se posso confiar em voc.
	Se  assim...  Finn estendeu o corpo e escancarou a porta do lado dela.  Saia e diga para o Lucas que eu mandei recomendaes!

CAPITULO II

Muito confusa, sem ter a menor noo do -que fazer, Carla saiu do carro e ficou olhando em volta. Ali as rvores eram bastante copadas e apenas alguns raios de sol se filtravam atravs dos ramos. Ento, voltou-se para Finn e disse baixinho:
	Acho que no tenho muita escolha.
	Voc fez a sua escolha l na igreja  ele afirmou.  Agora ter que se decidir: ou vai embora, ou volta para dentro do carro.
Ela deu um profundo suspiro e respondeu:
	Tudo bem.  E voltou-se a sentar.  Acho que me meti num beco sem sada.
	E isso  novidade para voc?
	Como assim?  Carla o fitou meio desentendida.
	Estou querendo saber se  novidade para voc se meter em becos sem sada.
	Voc est brincando, mas a situao  muito sria.
	E eu no sei disso?
	Estou com muito medo.
	Deveria ter pensado nisso antes de resolver se casar com aquele homem.
	J lhe contei o que aconteceu. E voc tambm  responsvel por essa confuso toda.
	Eu?  Finn perguntou espantado.  De jeito nenhum!
	Se no tivesse interferido, na certa a essa hora estaria casada.
	E feliz  ele ironizou.
	No, no estaria feliz, mas saberia o que o destino me reservava. E agora...
	No acredito no que estou ouvindo. Voc, ento, preferiria estar com o destino selado para sempre a lutar por uma vida digna?
	Mas a vida que eu tinha era digna.
	Olha, mocinha, a vida de uma pessoa s pode ser digna quando ela tem diante de si uma coisa muito importante, um bem incomensurvel, chamado liberdade.
Apesar de saber que Finn estava com a razo, ela deu de ombros e disse:
	Liberdade, para as mulheres da minha famlia,  se casar e ter muitos filhos.
	Ento, volte e se case com Lucas Finzi.
	Eu no vou fazer isso.
	Tem certeza?
	No muita, mas  o que eu vou fazer.
	Bem, se  assim, vamos resolver essa situao de uma vez por todas: saia do carro.
	Sair do carro?  Carla estava muito espantada.  Para qu? Acabei de me sentar.
	Mas vai precisar sair de novo.
	No estou gostando dessa brincadeira.
	Acontece que eu no estou brincando.
	Por que quer que eu saia de novo do carro? Voc no vai...
	Do que voc est com medo agora?
	Sou eu quem pergunto: o que est querendo fazer?
Finn a fitou com um sorriso nos lbios e disse, num tom provocativo:
	Est com medo que eu v assassin-la? Pois pode esquecer: no sou assassino. O meu personagem preferido, que resolvi assumir l naquela igreja,  de proteger mocinhas sonhadoras das mos da Mfia.
	J disse e repito: minha famlia nada tem a ver com a Mfia.
	Bem, se tem tanta certeza disso...  Com desinteresse, ele olhou para o lado de fora.  E acho que estou me preocupando  toa. Talvez, ento, eu devesse deix-la ir embora. A, voc voltaria para casa, inventaria uma histria mirabolante para todos e tudo estaria resolvido. Carla nada respondeu.
	Seu tio deve ser um homem bastante compreensivo  ele continuou , e Lucas, certamente, tomaria umas aspirinas para aliviar a dor de cabea, se trancaria num quarto escuro por algumas horas e acabaria por esquecer tudo o que aconteceu.
	Deixe a minha famlia fora disso.
- Eu adoraria deixar sua famlia fora disso, mas no acredito que ela queira se manter fora de um episdio to interessante. O melhor  chegarmos o quanto antes na Inglaterra e conseguirmos proteo para voc.
Ela mordeu o lbio inferior e quis saber:
	Se ainda est querendo me ajudar, por que pediu para eu sair do carro?
	No lhe parece bvio?
	No, no me parece bvio.
	Voc quer continuar fugindo assim?
	Assim como? No estou entendendo.
	Ser que quer continuar fugindo vestida de noiva?
	No tinha pensando nisso.
	Verdade?  ele voltou a ironizar.  Com esse vestido voc no iria chamar a menor ateno.
	No fale comigo desse jeito.
	E como  que estou falando com voc?
	Com muita ironia. E eu detesto ironia.
	Pelo jeito, voc  uma moa muito sensvel.
	Sou, sim.
	Mas voc concorda comigo que no pode continuar fugindo vestida de noiva.
	Isso  verdade.
	Ento, por favor saia do carro.
Devagar, tentando no pensar no pior, Carla voltou a sair do carro. Depois de fechar a porta, ficou sem saber o que fazer.
"Meu Deus, acho que me meti numa enrascada tremenda. Como pude fugir daquela maneira com um homem que no conheo? Esse Finn Cormac, apesar de charmoso, pode ser um maluco. S mesmo um maluco faz o que ele fez. E ele no parece estar l muito preocupado. Fala manso, quase no altera o tom de voz. Quem o v pensa que est acostumado a fugir com uma noiva todos os dias, tamanha  a naturalidade dele. Mas o estranho  que no consigo sentir medo. E deveria estar sentindo muito medo. A gente ouve tanta coisa nos noticirios." Ela deu um profundo suspiro e se encostou no caro. "Bem, quem sabe no fui eu quem ficou maluca? Meu comportamento tambm no foi nada normal. No sei se nos outros pases  muito usual uma noiva desistir de se casar no ltimo momento e depois fugir com um completo desconhecido. Mas acho que no."
Finn, naquele momento, abria a porta do carro.
Carla, de costas, no moveu um msculo sequer e s ficou ouvindo os passos dele.
	Aqui est.  Ele mostrou-lhe a tesoura que trazia nas mos.
	Pelo amor de Deus, no se aproxime!  ela gritou, assustada.
	Mas  claro que vou me aproximar.
	No, pelo amor de Deus, fique onde est, no se aproxime!
	No grite.  Finn, rapidamente, colocou a tesoura dentro do bolso e tapou-lhe a boca com uma das mos.  O que est pretendendo? Chamar a ateno dos outros? Se algum nos encontra aqui, estamos perdidos.
Apavorada, Carla fazia de tudo para entender o que ele estava lhe dizendo. E no estava sendo nada fcil.
	O que est pensando que eu sou, hem? Um assassino? Pois eu no sou um assassino, mocinha. A tesoura  para cortar o seu vestido. Portanto, muita calma. Vou solt-la. E, por favor, no volte a gritar. Se no tem medo de perder a sua vida, eu tenho medo de perder a minha. Entendeu o que eu disse?  Como Carla nada respondesse, ele voltou a perguntar:  Entendeu o que eu disse?
Carla, ento, balanou a cabea em afirmativa.
	Otimo.  Devagar, Finn se afastou um pouco dela. 	E se for dizer alguma coisa, use um tom de voz baixo.
	Voc deveria ter me dito que estava com aquela tesoura 	ela, sussurrando, o repreendeu.
	No pensei que fosse assust-la.
	E pensou o qu? Que fosse ficar feliz ao v-lo com uma arma na mo?
	No entendi, fale mais alto.
	No foi voc quem acabou de me pedir para falar baixo?
	Mas no precisa ser to baixo assim. O que foi que voc disse anteriormente?
	No importa o que eu disse. E, de agora em diante, aja de uma maneira mais civilizada.
	Estou fazendo alguma coisa errada?
	Mas  claro que est. Onde j se viu aparecer, de repente, com aquela tesoura?
Ele enfiou a mo no bolso e pegou a tesoura.
	No se aproxime!  ela disse entre os dentes.
	Pare com isso, Carla! J est ultrapassando o limite do bom-senso e eu j estou cansado dessa histria.
	Com  que tem uma tesoura dentro do carro?
	E o que me impede de viajar com uma tesoura? Tenho uma faca tambm. Ou melhor: tenho duas facas l dentro. Uma grande e outra pequena.
	No me ameace.
	E quem est ameaando voc? Fiz apenas um comentrio.
	E foi um comentrio de pssimo gosto.
	Bem, chega de conversa, vamos dar um jeito nesse vestido.
	Est pretendendo cort-lo?
	E tem outro jeito?
	No, voc no vai estragar esse vestido.
	S me faltava mais essa! Por qu? Por que eu no posso cortar o vestido?
	Esse  um legtimo Elsa Schiapparelli e foi feito  mo por volta de 1930.
	Isso para mim no tem a menor importncia. Temos que dar um jeito nele.
	Talvez voc pudesse me emprestar uma das suas roupas.
Finn, num gesto de impotncia, soltou os braos e comentou:
	Bem, vejamos: eu trouxe algumas coisinhas comigo no carro, mas acho que deixei todos os meus vestidos em casa.
	No achei a menor graa.
	Pois eu acho que tem graa, sim, senhora.
	Voc  um homem arrogante e frio. S um homem de muita frieza seria capaz de roubar uma noiva de dentro da igreja.
	Eu no roubei voc.
	Mas foi quase isso que aconteceu.
	Carla, est ficando muito tarde. Daqui a pouco vai escurecer.
	Por que voc no pode me emprestar uma das suas calas? E uma camisa tambm,  claro.
	Eu no tinha pensado nisso.
	E bem melhor do que estragar um vestido como esse que estou usando.
	Mas temos que nos apressar.
	Voc no me parece que est com muita pressa. E no parece tambm que est com medo de ser apanhado por Lucas.
	No tenho medo daquele imbecil. Mas temo por voc, pelo que possa lhe acontecer. Afinal, no corro risco nenhum em me casar com ele.
	Isso tambm no teve a menor graa.
	Ento, vamos parar com essas picuinhas.
	 voc quem est me provocando o tempo todo.
	Bem, acho melhor voc se livrar desse vestido.
	Como?  Ela se sentiu impotente.  Como vou me livrar desse vestido? Ele tem um monte de botes na parte de trs.
	Quer que eu os desabotoe?
	Eu...  ela titubeou.
	Voc no tem opo. Vire-se.
Carla, bastante ressabiada, virou-se e Finn comeou pelo primeiro boto, prximo ao pescoo.
	Est difcil.
	Tome cuidado. No quero estragar o vestido.
	Pronto. Consegui desabotoar o primeiro.
Carla se calou. E, naquele momento de proximidade, temeu que algo pudesse acontecer entre os dois. Finn tinha as mos leves, o toque delicado...
"Pare! Pare j de pensar em besteira!", ela se recomendou em pensamento. "Ser que j no basta de confuso?"
Finn continuou na sua tarefa.
Profundamente incomodada com aquele silncio, Carla perguntou:
	Por que voc est fazendo isso por mim?
	O qu? Est querendo saber por que estou perdido nessa fileira de botes?
	No, quero saber o motivo que o levou a me tirar daquela igreja enfrentando a tudo e a todos.
	Sempre tive tendncias suicidas.
	No brinque, Finn.
	Eu no estou brincando  ele afirmou, sem muita seriedade.
	Mas  claro que est. Por favor, me diga por que fez aquilo.
	Bem, porque voc  uma mulher muito bonita.
	Isso tambm no  resposta.
	E que tipo de resposta est querendo que eu d?
	Quero que me d uma resposta sensata.
	Como essa?  Finn a virou e, em seguida, a beijou.
Pega de surpresa, Carla correspondeu ao beijo. Porm ao sentir as mos dele se introduzirem pela abertura da parte de trs do vestido, ela o empurrou.
	Por qu? Por que voc fez isso?
	Porque tive vontade. E voc? Por que correspondeu ao beijo?
	Eu no correspondi ao beijo  ela se viu obrigada a negar.
	 verdade!
	No quero que isso se repita.
	Eu tambm. Finn zombou , voc no correspondeu.
	Voc  um homem execrvel, Finn Cormac.
	E voc, Carla Gambini, beija de uma maneira deliciosa.
	Chega! Pare de me provocar.
	No estou provocando voc. S estou dizendo a verdade.
	Voc est, sim, me provocando, e parece adorar me ver sem graa.
	Digamos que voc faz uma carinha fantstica quando fica constrangida.
	Voc vai, ou no, me emprestar uma roupa?
- No banco de trs do carro tem um sacola.  s abrir e vai encontrar uma bata indiana e um shorts.  Vendo que Carla no se movia, ele continuou:  Vamos, o que  que est esperando?
Carla entrou na parte de trs do carro.
	Vire-se!  ela pediu.
	Por qu?
	Porque, simplesmente, no vou me trocar na sua frente.
	J vi outras mulheres despidas.
	Isso  problema das outras mulheres. Vire-se.
Com um sorriso no lbios, Finn deu-lhe as costas e perguntou:
	J est pronta?
	No seja engraadinho. Ainda tenho que tirar essa porcaria de vestido.
	Precisa de ajuda?
	No ouse virar-se, Finn Cormac!  Com muita dificuldade, Carla livrou-se do vestido e pegou as roupas na sacola.
	E ento? J posso virar?
	Ainda no.  Ela estava acabando de colocar o shorts.
Alguns instantes depois, Carla dizia:
	Agora, voc pode se virar.
Finn, virou-se.
	Essa roupa lhe assentou muito bem.
	Obrigada.
	Voc tem um corpo perfeito.
	Eu sei disso.
	Quer dizer que estou diante de um mulher consciente dos seus dotes fsicos?
	Quer parar de me provocar?
	Sou um homem que adora provocar as pessoas.
	Por qu? Por acaso  francs? Apesar do seu ingls ser perfeito, voc tem um certo sotaque.
	No sei qual o motivo que a levou achar que sou francs. Boa parte do meu sangue  irlands.
	Pior ainda.
	Pelo jeito, voc no gosta dos franceses, nem dos irlandeses.
	Finn, voc no disse que estava com pressa? J escureceu bastante.
	E estou.
	Ento, vamos embora.
	No est pretendendo deixar o vestido de noiva l no banco de trs, est?
	E onde quer que eu o coloque?
Sem responder, Finn abriu o porta-malas do carro e pegou um saco plstico bem grande.
	 em sacos como esses que coloco as minhas vtimas  ele voltou a provoc-la.
	Isso  muito mrbido. Deixar as pessoas apavoradas lhe d muito prazer?
	s vezes.  Ele estendeu a mo.  Me d o vestido.
Carla virou-se, pegou o vestido no banco de trs e o entregou a ele.
Depois de pr o vestido dentro do saco de plstico, Finn o colocou no porta-malas e foi sentar-se  direo.
	Bem, agora  melhor ns irmos. No acredito que eles nos encontrem. Iremos em frente naquela rodovia maior, at a fronteira da Frana.
	Eles vo nos encontrar, sim.
	Como sabe disso?
	Meu tio e o Lucas so homens muitos poderosos e tm contato em todos os lugares. E os dois no vo desistir at que nos encontrem.
	Est querendo desistir, Carla?  Ele agora usava um tom muito delicado.
	Estou confusa.
	Confusa? Com o qu?
	Principalmente com voc. Ainda no entendi o motivo que o levou a fazer o que fez. No acredito que tenha a ver com o livro que est escrevendo. Acho que seria melhor me deixar aqui e ir embora sozinho. Continuar comigo  muito arriscado. Eu dou um jeito de chegar at a minha casa. A, eu peo desculpas e...
	E se casa com o Lucas  Finn completou-lhe a frase.
	Com toda certeza ele no vai mais querer se casar comigo. Mas eu posso dar um jeito na minha vida, no se preocupe.
	Bem,  hora de irmos embora.
Finn ligou o carro e at que chegassem prximos  rodovia, os dois ficaram em silncio. Ento, ele voltou a parar o carro e quis saber:
	De uma vez por todas, me diga: voc quer se casar com aquele mafioso?
	Claro que no. Mas tambm no quero que se arrisque tanto por minha causa.
	O que acha que a sua famlia vai fazer conosco, caso nos encontre?
	Eu no fao a menor ideia.
	Voc est mentindo. Ns dois sabemos que no d mais para voltar atrs. Se voltar para casa, vai sofrer consequncias gravssimas pelo que fez.
	Mas, pelo menos, vou continuar viva  ela disse com amargura.  Voc tem que ir embora sozinho. No d para continuar se arriscando tanto.
Finn sorriu de maneira mansa e a fitou.
	Do que voc est rindo?  ela quis saber.
	Estou rindo de voc.
	Rindo de mim? Por qu?
	Voc  uma mulher muito valente, Carla. E gostaria que me fizesse um grande favor.
	Favor?  Ela o fitou meio desentendida.
	Exatamente.
	E que favor  esse?
	Veja se o seu cinto de segurana est bem atado. Tenho certeza que nesse horrio a rodovia se encontra bastante movimentada.
J havia escurecido totalmente e era uma noite sem luar. Carla, ao lado de Finn, sentia-se pouco  vontade naquele short imenso. Ao perceb-lo tenso, ela perguntou:
	O que est acontecendo?
	Me parece que a uns dois quilmetros daqui tem uma barreira. Pule para o banco de trs e se esconda no cho.
Sem hesitar, Carla obedeceu as ordens de Finn e aguardou. Quando percebeu que ele diminua a velocidade, comeou a rezar.
Finn, mantendo a tranquilidade, se aproximou da barreira com o vidro aberto.
Um dos homens de Lucas lhe perguntou:
Viu um homem com uma ruiva por a?
No, no vi nada  Finn respondeu, num italiano perfeito.
Tem certeza?
Absoluta.
Carla, no cho, continuava rezando. De repente, ouviu um dos homens dizer ao outro:
Trs carros. Em trs carros que passaram por aqui tinha uma ruiva. E nenhuma delas era a que procuramos. Acho melhor ir dar uma volta pela estrada e ver se eles saram do esconderijo.
Os dois s podem estar escondidos em algum lugar.
"Por que ser que Finn no acelera? S faltava esses monstrengos resolverem examinar o carro."
	Pode seguir, senhor.
	Obrigado. E tenham um bom trabalho  Finn voltou a dizer em italiano e acelerou o veculo aos poucos.
Continue onde est, Carla. No quero me arriscar.
	Tem certeza que vou ter que ficar aqui por mais tempo? Essa posio  muito incmoda.
Infelizmente, vai ter que continuar a, sim.
Mas...
	Carla, por favor, no insista. Os homens estavam todos armados. No tenho a menor vontade de ser enterrado aqui na Itlia.
No brinque com uma coisa dessa.
No estou brincando. E a mais pura verdade.
Carla j no estava mais suportando ficar naquela posio.
	Finn, posso sair daqui?
	Acho que agora pode, sim. J estamos bem longe daquela barreira.
	Ainda bem  ela disse e foi se acomodar no banco da frente.  Ser que no estamos mais correndo perigo?
	Espero que no.
	Como foi que ele no reconheceram o carro?
	Quando fugimos da sua cidade, os homens no tiveram tempo de saber em que carro ns estvamos.
	Tem certeza?
	Absoluta. A cidade onde voc mora tem ruelas cheias de curvas. Mas eles podem nos encontrar de uma hora para outra.
	Espero que isso no venha a acontecer. E acho que no devemos ficar pensando no futuro. O importante  que nesse preciso momento ns estamos livres.
Tensa, Carla resolveu ficar calada. Alguns quilmetros depois, ele disse:
	Seu silncio  to eloquente que est me deixando nervoso.
	Est?
	Pode acreditar que sim.
	Estava pensando que voc s pode ser um louco para ter feito o que fez.
	No tem ningum louco na sua famlia? Seu tio, por exemplo. Acho que ele...
	Quer deixar o meu tio fora dessa histria?
	Bem, ento vamos falar do Lucas. Ele deve ter todas as qualidades que um bom italiano como seu tio quer para se casar com a sobrinha dele. Lucas  o tipo do homem que no pede, mas ordena. Ele deve fazer o que bem entende de uma mulher. E acho que voc, no fundo, gosta que os homens ajam dessa maneira.
	O que  isso? O que deu em voc? Como ousa falar assim comigo?
	Bem, pela sua reao, acho que exagerei um pouco. O seu problema, Carla Gambini,  que sempre aceitou sem questionar, as ordens que recebeu do seu tio e do Lucas. Faz tempo que estudo a maneira que as famlias como a sua agem. E at hoje acreditava que nada poderia me surpreender. Mas estava errado. Nada me surpreendeu mais do que a atitude que teve na igreja. Jamais poderia imaginar que voc, aparentemente to frgil, teria coragem de, no altar diante de todos, dizer no a um casamento arranjado.
	Aquilo no era um casamento arranjado  ela protestou.
	Ser que exagerei de novo?
	Exagerou.
	 verdade, voc estava se casando por amor.
	No era por amor que estava me casando, mas tambm no era um casamento arranjado.
 
	Adorei ver a cara do seu noivo quando voc disse no a ele.
	Eu no tenho mais noivo.
	Lucas parecia um menino.
	Como assim?  ela perguntou, interessada.
	Voc j viu algum, por pura brincadeira, tirar um doce de uma criana?
	Mas  claro que sim.
	Pois o seu noivo, quando voc disse no, ficou com cara de criana quando lhe tiram um doce.
	Voc est me comparando a um doce?
	E isso chateia voc?
	Mais ou menos.
	Foi apenas fora de expresso. Mas a cara do Lucas ficou muita engraada. Acho que jamais pensou que uma mulher ousaria fazer aquilo com ele. Pena que tivemos que correr. Adoraria ter ficado mais tempo por l s para continuar vendo a cara daquele imbecil. Para um escritor,  sempre muito bom" presenciar situaes como aquela.
	Voc se diverte com a desgraa alheia. E isso no  nada bom.
	Engano seu, mocinha. Eu no me divirto com a desgraa alheia. Mas ver um homem como Lucas Finzi passar por um vexame to grande  muito divertido.
	Teria coragem de reportar aquilo tudo num livro?
	E ainda tem alguma dvida?
	Voc me assusta, Finn Cormac.
	Eu? Eu assusto voc? : ele perguntou espantado.  Quem diria! Logo voc que estava para se casar com um mafioso, se assustar com um homem como eu.
	Voc s pode ser louco mesmo.
	E voc, Carla Gambini, tambm no deve ser l muito boa da cabea. Deveria ter desistido do casamento muito antes. Mas no, precisou chegar at ao altar para criar coragem.
	J lhe contei o que aconteceu.
	Tudo bem. Acho melhor voc dormir um pouco. Deve estar muito cansada.
	Eu no quero dormir. E mesmo se quisesse, no iria conseguir.
	Por qu?
	Ainda no sei se posso confiar em voc.
	Ainda no sabe se pode confiar em mim?  Ele riu. No acredito no que estou ouvindo. Voc s pode estar brincando. Acha que vou atac-la? Assim, dirigindo?
	Pare de zombar de mim.
	No estou zombando. S acho que a sua imaginao  muito frtil. No se esquea que eu sou o escritor.
	No entendi.
	So os escritores que tm a imaginao frtil.
	Voc sempre leva tudo na brincadeira?
	Nem sempre. Mas para viver  preciso brincar um pouco.
	A situao que estou vivendo  bastante trgica.
	E a minha? J pensou na minha situao? Se os homens do Lucas me pegam, estou acabado. No vai sobrar nem um fio de cabelo meu para contar a histria.
 Voc poderia ter evitado essa situao.
	Como?
	Era s no se meter no que estava acontecendo no altar.
	Impossvel. No pude resistir. Agora v se dorme.
	J lhe disse que no vou dormir.
	Alm de maluca, voc  uma mulher bastante teimosa. Todas as italianas so assim?
	Isso eu no sei. Mas eu posso lhe garantir que no sou teimosa.
	No, voc  a pessoa mais cordata do mundo.
Carla percebeu que no dava para continuar com aquela conversa. Recostou o cabea no banco e fechou os olhos.
"Eu no vou dormir. Tenho que me manter em alerta. Alm dos homens do Lucas, ainda preciso me preocupar, e muito, com esse homem que est ao meu lado. Finn Cormac, pelo jeito, no mede consequncias para os seus atos."
Carla continuou resistindo ao cansao e ao sono. Mas isso aconteceu por apenas mais uns cinco minutos. E s foi acordar algumas horas mais tarde.
	Onde ns estamos?  ela perguntou, assustada.
	Faz tempo que passamos por Roma.
	J?  Carla pensou que ele estivesse brincando.
	J.
	Ento, eu dormi muito.
	... Digamos que sim.  Ele a fitou.  Estamos prximos de Florena.
	Ento, eu dormi muito mesmo.
	E ainda tem alguma dvida? So duas horas da manh. Se continuarmos nessa velocidade, podemos almoar em territrio francs.
"Almoar? E o que eu fao com a fome que estou sentindo?"
	O que foi?  ele quis saber.
	Acho que no vou conseguir esperar at chegarmos na Frana.
	Por qu?
	Estou com muita fome.
	Bem, se  assim, vou parar num posto que tem logo  frente.
	Otimo  ela disse, aliviada.
	Antes de chegarmos l, quero que se esconda.
	De novo? De novo voc quer que eu v l para trs?
- No precisa ir l para trs, mas tem que manter a cabea abaixada.
	Mas j estamos muito longe da minha cidade.
	No se brinca com a Mfia. Ser que no sabe disso? Pronto. Pode dar um jeito de se esconder. J vou entrar no posto.
	Eu no caibo no espao onde esto os meus ps.
	 s manter a cabea abaixada.
Ela seguiu-lhe as instrues.
	Voc tem muita flexibilidade, Carla  ele comentou, quando parava o carro no estacionamento.
	Sempre adorei fazer ginstica  ela disse, com a voz abafada por causa da posio.
	Hoje em dia, as mulheres adoram fazer ginstica.
	Eu fao ginstica desde que era bem pequena.
	Certo.  Ele abriu a porta do carro. Antes de descer, disse:  Fique nesta posio. Eu j volto.
"Que dia! Mas tenho certeza que os homens de Lucas no esto aqui."
Devagar, Carla ergueu a cabea e olhou em volta. O posto estava muito movimentado.
"A comida daqui deve ser muito boa. Tem muita gente aqui e j  bem tarde. E no estou vendo ningum que me lembre os homens do Lucas. Mesmo assim,  melhor eu continuar abaixada."
No instante em que estava se abaixando de novo, ela notou uma maleta no cho do veculo, prxima aos seus ps.
"Essa maleta, com certeza, estava debaixo do banco.  melhor eu coloc-la no lugar."
Porm, no instante em que pegou a maleta, ela se abriu e muitos recortes de jornais caram no cho.
"Finn vai achar que eu mexi nas coisa dele", ela pensou e tratou de colocar os recortes no lugar. "Mas o que  isso?"
Carla se atentou para os recortes que estava guardando, todos escritos em ingls. Aquilo, de repente, a fez voltar no tempo. E ela se viu criana, com Sarah ao seu lado, ensinando-lhe as primeiras palavras naquele idioma.
"Como sinto saudades de Sarah. Quando ela foi embora, eu deveria ter uns onze anos. E Sarah deixou apenas os romances que vivia lendo..."
De repente, um dos recortes lhe chamou a ateno.
"Mas que histria  essa?" Encabeando a matria, em letras garrafais, ela leu: Carla Gambini.
Sem perder tempo, Carla leu a matria baixinho:
	Carla Gambini, a despersonalizada sobrinha de um dos chefes cruis da mfia, vai se casar com outro mafioso, tambm um homem muito cruel, chamado Lucas Finzi.  Trmula, Carla continuou lendo a matria. Ao terminar, ela estava indignada.  No acredito! No acredito que isso tudo foi publicado. Ento  isso que os ingleses leram a meu respeito?
	O que voc est fazendo com a minha maleta?  Finn que tinha voltado, perguntou junto  janela do carro.
	Voc tem algo a ver com isso aqui?  foi a resposta dela.
	Claro que sim.  Ele abriu a porta e voltou a sentar-se ao volante.  Eu escrevi essa matria.
	Voc? Voc escreveu esse lixo todo?
	E fui muito bem pago.
Carla jogou o recorte no cho e levou a mo  maaneta.
	Vou sair j deste carro.
	No vai, no.  Ele a segurou pelo brao.
	Me solte! Me solte, ou...
	Ou o qu? Vai me ferir com um grampo?
	Eu quero sair daqui  ela tentava se soltar.
	Se sair, vai machucar o p. Voc est descala. O estacionamento  totalmente recoberto por pedregulhos.
	Voc est mentindo!  Ela finalmente abriu a porta.
Mas, quando colocou os ps do lado de fora, viu que Finn, pelo menos daquela vez, lhe dissera a verdade.
Muito irada, virou-se para ele e disse:
	Queria lhe dar uma surra.
	Posso lhe emprestar a minha cinta.  Ele levou as mos at o cs da cala.
	Voc  um ser repugnante. Quantas mentiras mais escreveu a meu respeito?
	No fao a menor ideia. Depois de conhec-la, j no sei mais o que  verdade ou mentira.
	Voc adora me provocar, no ?
	Um pouco. Mas s um pouquinho.
	Como ousou me chamar de despersonalizada?
	Foi uma deduo da minha parte.
	Deduo? Ento, como ousou deduzir uma coisa dessa?
	Bem, s uma mulher sem a menor personalidade se casaria com Lucas Finzi.
	Tem uma outra parte nessa maldita matria que diz que passo o tempo todo fazendo compras.
	E isso  mentira? - ele a desafiou.
	Sai voc do carro  foi a resposta dela.
	Por qu?
	A do seu lado tem grama. E eu quero ir ao banheiro.
	Mas...
	Saia da, Finn! Eu quero e vou ao banheiro.
Vendo que no adiantava discutir, Finn saiu do carro.
Muito furiosa, Carla passou para o acento do motorista e depois, tambm saiu do carro.
	Que gnio!  ele disse.
Carla, sem ao menos lhe dirigir um olhar, seguiu para o banheiro que no ficava muito longe de onde se encontravam. Quando j estava saindo, olhou-se no espelho e detestou o que viu.
	Eu ainda estou maquiada!  ela disse baixinho.  E vou tirar essa maquiagem toda. E vai ser agora!
Usando um pedao de papel-tolha, ela comeou pelo batom vermelho que tinha nos lbios. Depois foi a vez do rosto inteirinho.
"Acho que no me pareo nada com o meu tio. E no fao a menor ideia de como eram na realidade os meus pais. Eles morreram quando eu era um bebezinho... De quem ser que herdei esses cabelos vermelhos e esse olhos que no so nem castanhos, nem verdes? Acho que nunca vou ficar sabendo. As poucas fotografias que restaram dos meus pais so em preto e branco e esto muito velhas e totalmente desfocadas. Eu adoraria saber como eles eram de fato. Ser que Finn sabe alguma coisa sobre eles?"
Ao terminar de retirar a maquiagem, Carla se sentou numa poltrona e ficou pensando na vida.
"E o livro que o Finn escreveu sobre o Lucas? Eu deveria ter lido. Mas no, como sempre, acreditei nas palavras do meu tio e do meu ex-noivo. E acabei aceitando que tudo no passava de mentira. Lucas vivia dizendo que Finn Cor-mac havia escrito o livro apenas para ganhar dinheiro de maneira suja e fcil. Jamais me passou pela cabea que era Lucas quem poderia estar mentindo."
	Bem, acho melhor eu voltar para o carro.
Assim que Carla se aproximou do veculo, Finn lhe perguntou:
	Onde foi que voc se meteu?
	Eu fui ao banheiro.
	E onde fica esse banheiro? Na lua?
	No me amole.
	Estou esperando faz um tempo.
	Isso no  problema meu.
	Mas  claro que  problema seu. Entre no carro.
	No quero entrar no carro. Aqui fora est muito mais fresquinho  ela resolveu desafi-lo.
	Isso no  hora para brincadeira, Carla. Pare de se comportar como uma criana mimada. Entre no carro.
	J lhe disse, sr. Cormac, aqui fora est muito melhor!
	Voc  uma mulher muito, mas muito teimosa mesmo!  Ele a segurou pelo brao.  Vai entrar nesse carro agora!
	E voc, sr. grande escritor,  um desqualificado. S uma pessoa sem o menor carter escreveria aquilo tudo sobre mim.
	Estou achando que fui at bondoso demais com voc quando escrevi aquela maldita matria. Agora, entre no carro!

CAPITULO III

Carla percebeu que sentia um prazer imenso 'em desafi-lo.
	Solte o meu brao.
	Olhe aqui, garota  ele soltou-lhe o brao, mas em seguida, a segurou pelos ombros , ns no estamos passeando, sabia? Estamos vivendo um momento muito perigoso. E foi voc quem comeou isso tudo! Ser que no passou pela sua cabea que eu poderia ficar muito preocupado pelo fato de no voltar logo? Ser que no passou pela sua cabea que eu poderia estar achando que o pior havia lhe acontecido? No d para brincar com os seus parentes.
	Sei muito mais sobre os meus parentes do que voc.
	Duvido!
	Voc  um homem muito arrogante e sempre acha que sabe tudo, no ? Aposto que a nica razo que fez com que ficasse to assustado com a minha demora foi o medo de perder a fonte para o seu novo livro.
	No, no foi por causa disso.
	Mas  claro que foi.
	Bem, se acha que sou um homem to interesseiro assim, deveria ir embora  ele disse, agora com muita calma.
	Voc sabe que no posso fazer isso. Se eu pudesse, tenha certeza que nunca mais iria querer v-lo. Quando chegar na Inglaterra, vou sumir da sua vida. Quando...  Assustada, Carla interrompeu a frase.
	O que foi?
	Atrs de voc. No se vire.
	O que  que tem atrs de mim?
	Fale baixo e no se vire.
Carla tinha acabado de ver, estacionado prximo dali, um carro azul-escuro, muito familiar. Dentro do carro estava apenas um s homem: Lucas.
	O que foi que voc viu?
	Lucas.
	O qu?  Quem estava assustado agora era Finn.
	E ele est saindo do carro. E est vindo para c.
Finn, ento, virou-se e disse entre os dentes:
	Entre no carro.
	No. Acho que devo conversar com ele. Lucas tem que me ouvir.
	Ser que no viu que o seu noivinho abandonado est com uma arma na mo?
	Mesmo assim eu quero conversar com ele.
	De jeito nenhum! Entre no carro. Entre no carro e ligue o motor.
	Para qu?
	Agora no  hora para perguntas. Apenas entre no carro e ligue o motor. J!
Trmula, Carla fez o que Finn lhe pedira e, para sua surpresa, antes mesmo de ter acabado de ligar o motor do carro, ele sentou-se no banco de passageiros e fechou a porta. Porm, no instante seguinte, Lucas disse, muito prximo  janelinha do veculo:
	Poderia mat-los. Agora!
	Isso  o que voc pensa.  Carla viu a mo esquerda de Finn deslizar pelo vo que separava os dois bancos e, de l, retirar um revlver.  Quem pode lhe assegurar que eu no o mataria antes?
Finn, ento, apontou a arma para o italiano.
	Voc no ousaria fazer isso.  Pego de surpresa, Lucas olhou para a arma que tinha nas mos.
	Nem pense em apontar essa sua arma para mim  Finn disse num tom de voz ameaador.
	Muitos homens esto aqui neste posto comigo.
	Voc est mentindo. No estou vendo nenhum.
	Voc no tem coragem de atirar em mim  Lucas disse, furioso.
	A  que se engana. Se fosse voc, me afastaria devagar e no criaria mais problemas.
	Foi voc quem criou todos os problemas.
	No estou aqui para discutir com voc, entendeu? Que ro que se afaste devagar, bem devagar.
	Eu...
	No discuta comigo! Simplesmente se afaste sem dizer  mais nenhuma palavra.
Vendo que Lucas Finzi continuava imvel, Finn vociferou:
	Se afaste, agora!
Meio sem saber o que fazer, o italiano comeou a se afastar.
	Acelere, Carla.
Carla no esperou uma segunda ordem. Precisa, acelerou o carro e saiu do posto cantando os pneus.
	O que  isso?  ela quis saber ao ouvir alguns estampidos.
	E voc ainda pergunta? Aquele canalha est atirando contra a gente.
	Mas isso  proibido.  Eles j estavam na rodovia e seguiam em frente em alta velocidade.
	Voc  mesmo uma grande surpresa, Carla. Quando  que vai entender que estava para se casar com um bandido?
	Lucas no deveria ter atirado.
	Ele  um bandido.
	Mas voc tambm est com uma arma. E isso o torna igualzinho ao Lucas.
	Ser?  ele ironizou.
	Voc teria atirado nele?
	Com isso daqui?  Finn olhou para a arma.  Mas  claro que sim.
	Vocs homens so todos iguais. A fora de vocs est nas armas. Eu sou contra qualquer tipo de arma de fogo. Por mim, a populao mundial inteira deveria ser desarmada.
	Eu concordo com voc.  Finn levou o revlver at  boca e deu uma mordida no cano.
	Voc enlouqueceu?  Carla perguntou assustada.
	No, apenas gosto muito de chocolate.
	Esse revlver  de... chocolate?
	E  chocolate dos bons. Acabei de compr-lo no posto.
	No acredito.  Ela estava espantadssima.
	Pois pode acreditar. No quer dar uma mordidinha nele?
	Voc  maluco mesmo, no ?
	Por qu?
	Garanto que a arma do Lucas no era de chocolate.
	Isso ns pudemos constatar quando samos do posto. E ento? No quer dar uma mordidinha?
	No, eu no quero!  Carla estava muito brava.
	Mas voc disse que estava com fome.
	Depois de tudo o que aconteceu, a minha fome passou.
	Trouxe dois sanduches para voc.  Ele olhou para o revlver.  E isso aqui tambm era para voc.
	Quando estava falando com o Lucas, podia jurar que no estava nem um pouco apavorado.
	Mas eu estava. E muito.
	No parecia.
	Alm de escritor, sou tambm um excelente ator.
	Eu vi mesmo!  Ela balanou a cabea de um lado para o outro.  Ns tivemos muita sorte.
	Voc sempre dirige desse jeito?
	No entendi...
	Voc dirige como um profissional, Carla?
	Sou uma excelente motorista.
	E modesta tambm  Finn brincou.
	Aprendi a dirigir com um dos homens do meu tio.
	Eu sabia, eu sabia que s podia ser coisa de profissional. A sua sada do posto foi espetacular. Voou cascalhos para todos os lados.
	Gostou mesmo?  ela perguntou, toda orgulhosa.
	Gostei muito.
Carla, ento, acelerou ainda mais.
	O que foi? Est querendo que o carro decole?
	Seria maravilhoso se isso acontecesse, no seria? J pensou? A gente ia poder ver tudo l de cima.
 Poderamos tambm chegar mais depressa na porta de So Pedro. Ele deixaria voc entrar no cu?
	Mas  claro que deixaria. No sou uma grande pecadora.
	No?  ele duvidou.
	Pode acreditar. Meus pecados so todos veniais.  Ela riu e perguntou:  O seu cinto de segurana est bem atado?
	Meu Deus, naquela confuso toda, me esqueci do cinto.
	Ento, por favor, arrume esse cinto agora.
	Correndo do jeito que voc est, no posso deixar esse cinto assim por mais nem um segundo.  Finn arrumou o cinto de segurana e olhou para trs.
	No se preocupe, Lucas no vai nos alcanar.
	Como tem tanta certeza?
	Sempre dirigi melhor que ele.
	 mesmo?
	E o Lucas sempre teve muita raiva disso. Se fosse homem, gostaria de ser piloto de Frmula Um.
	Voc iria dar muito trabalho aos seus adversrios.
	Quanto a isso, no tenho a menor dvida.
	Voc  mesmo muito modesta, Carla Gambini.
	S estou dizendo exatamente o que penso.
	Acho melhor voc no se sentir to segura.
	Por qu?
	O seu noivinho...
	Lucas no  mais meu noivo  ela o interrompeu.
	Me desculpe. Mas ele podia mesmo estar com outros homens e um deles pode dirigir melhor que voc. O carro do Lucas tambm era bem possante.
	Isso  verdade. Quer tomar o meu lugar  direo?
	De maneira alguma. Estou me sentindo muito bem ao lado de uma motorista como voc.
	 mesmo?  Carla duvidou.
	Pode acreditar que sim. S me sentiria melhor se voc desse uma mordida no revlver.
	Ento, me d ele aqui.
Finn estendeu-lhe o revlver de chocolate.
	Esse revlver est mesmo uma delcia  ela disse, assim que deu um mordida no cano.  O chocolate  bom mesmo.
	Voc  muito engraada.
	Eu? Engraada? Por qu?
	Pensando melhor, no  bem voc que  engraada.
	Tem certeza que est bem, Finn? Voc me parece meio confuso. O susto que levou l no posto deve t-lo deixado meio abalado.
	No, pode ficar tranquila. Estou me sentindo muito bem.  Ele comeou a rir.
	Se est bem, por que resolveu rir tanto assim?
- E que esta cena  muito engraada. Ficaria excelente num romance.
	Daria para me explicar melhor o que est tentando me dizer?
	J pensou?
	J pensou, o qu?
	Uma cena onde a herona, sobrinha de um dos chefes da Mfia est fugindo da prpria organizao, comendo um revlver de chocolate? Ia ficar fantstica!
	Acontece que isso que estamos vivendo  a mais pura realidade e gostaria que levasse a nossa fuga mais a srio.
	E quem disse que no estou levando? Mas que a cena ia ficar engraada, ia...
Aos poucos, Finn foi parando de rir e os dois ficaram em silncio por alguns segundos.
	Acho melhor voc diminuir a velocidade.
	Mas ns estamos fugindo.
	Eu seif mesmo assim  melhor diminuir a velocidade. Voc est correndo muito.
	Mas eu dirijo muito bem.
	Quanto a isso no tenho a menor dvida. Mas quero chegar vivo ao nosso destino. Um acidente, nesta velocidade, seria fatal.
	No vai acontecer acidente nenhum. Sei o que estou fazendo.
	Carla, no seja irresponsvel. Voc pode ser uma excelente motorista, mas um pneu pode furar e...
	Tudo bem, voc tem razo.  Ela diminuiu a velocidade do veculo.  Est bom assim?
	Est timo.
	Por que voc estava no meu casamento?  ela perguntou, de repente.  E como conseguiu entrar na igreja?
S era permitido a entrada de pessoas conhecidas.
	Simplesmente, entrei.
	No pode ter sido to simples assim. No mnimo deve ter dito um monte de mentiras aos seguranas.
	Algumas. Eu disse, sim, algumas mentirinhas.
Carla o fitou intensamente e depois voltou a prestar aten o na estrada.
	O que foi?  ele quis saber.  O que aconteceu?
	Nada.
	Mas  claro que aconteceu algum coisa. Por que me olhou daquele jeito?
	Acontece, Finn Cormac, que voc  um homem singular. Pelo que pude perceber, tem um carisma todo especial que deixa as pessoas meio hipnotizadas. Na igreja, todos ficaram um bom tempo sem ao. Foi por isso que conseguimos fugir. Depois, conseguiu fugir do Lucas com um re
vlver de chocolate. Realmente voc hipnotiza as pessoas.
	Inclusive voc?
Carla, que no esperava por aquela pergunta, respondeu:
	De maneira" alguma.
	Voc  uma mulher muito contraditria, Carla?
	Por qu?
	No saberia explicar direito. Mas estou me perguntando: como uma mulher que dirige to bem um carro, no sabe dirigir a prpria vida?
	Tudo  uma questo de oportunidade. Mas vou aprender a dirigir a minha vida tambm.
	J pensou? Se tivesse se casado, agora estaria tomando champanhe com o Lucas.
	Nem me lembre uma coisa dessa. Acho que voc de veria descansar um pouco, Finn.
	De jeito nenhum. Quero permanecer acordado.
	Pode dormir. Prometo que no vou correr mais. Depois que acordar, eu lhe dou a direo e tambm descanso um pouco.
	Certo, mas antes voc tem que comer um sanduche.
	Sabe que ia lhe pedir exatamente isso? Do que  o sanduche?
	Como lhe disse, comprei dois: um  de peito de frango desfiado com salpico e o outro  de ricota temperada.
	Quero o de peito de frango.
Lucas pegou o sanduche e lhe entregou.
	Obrigada.  Ela deu uma mordida no sanduche.  Est especial. No quer provar?
	J comi os meus, obrigado.
Depois de ter acabado de comer o sanduche de peito de frango, Carla quis o outro.
	Voc est mesmo com fome  ele comentou.
	Mas agora ela j est passando.
	Tambm, no  para menos. Os sanduches so bem grandes.
	Acho que, alm da fome, eu estava me sentindo muito ansiosa.
	Posso saber o motivo de tanta ansiedade?
	Esse dia, o dia em que me tornaria a sra. Finzi, no foi nada fcil para mim.

	Eu imagino.  Ele recostou-se no banco.  Bem, agora vou dormir um pouco. Se quiser, a no vo entre os bancos tambm tem refrigerante.
	Certo. Agora pode dormir tranquilo. Se vir alguma coisa suspeita eu acordo voc.
Quando Finn acordou, o dia j estava clareando.
	Bom dia  ela disse, com um belo sorriso nos lbios.
	Bom dia  ele respondeu.  Aconteceu algum problema?
	No, apenas derrubei umas seis ou sete barreiras, de resto a viagem foi muito tranquila.
	Voc tambm adora brincar, no ?

	Nessa altura dos acontecimentos, o que mais eu posso fazer?
	Quer me passar a direo?
	No, estou desperta. Se quiser, pode continuar dormindo.
	Voc  mesmo uma mulher muito estranha.
	Antes de dormir voc me disse que eu era contraditria, agora diz que sou estranha. Afinal: sou contraditria ou estranha?
As duas coisas.  Ele se espreguiou. Agora gostaria de dirigir um pouco.
	Mas eu j lhe disse que estou bem.
	Carla,  melhor eu pegar a direo. Depois eu a devolvo para voc.
	Se  isso que quer...  Ela parou no acostamento e trocou de lugar com Finn.
Cinco minutos depois, ele disse:
D uma olhadinha para trs.
O que foi?
Lucas est logo atrs de ns.
	Ele, ento, conseguiu nos alcanar. Eu no deveria ter diminudo a velocidade do carro. Se tivesse mantido a velocidade, Lucas jamais nos alcanaria.
	Precisamos agir rpido. Assim que der, vou passar para o outro lado da estrada.
	Como?  ela perguntou preocupada.
	Atravessando o canteiro principal.
	Mas isso  loucura. O carro pode quebrar e a, sim, estamos perdidos.
	Tenho que-fazer isso. Daqui a pouco aquele imbecil vai comear a atirar contra ns e voc acabou com o meu revlver.
	Isso no  hora de brincar, Finn.
	Mas eu estou falando srio. Voc comeu o meu revlver. Segure firme!  Numa manobra arriscadssima, ele passou para o outro lado da estrada.
	Meu Deus! Eu nunca tinha visto uma coisa dessa! S no cinema!
	Eu tambm sei dirigir direitinho.  Com satisfao, ele deu umas pancadinhas na direo.
Mas a alegria dos dois s durou alguns instantes.
	No pode ser, o Lucas est atrs de ns outra vez.  Ele aumentou a velocidade do carro e olhou pelo retrovisor.
 U? O que foi que aconteceu?
	O que foi?  Carla virou-se para ver o que estava acontecendo.
	Lucas perdeu a direo, saiu da estrada e bateu num barranco.
	No disse? Ele nunca soube dirigir direito. Diminua a velocidade do carro.
	De maneira alguma.
	Diminua!  ela voltou a pedir.
Finn, ento, resolveu parar no acostamento.
	Por que isso agora, Carla?
	O Lucas pode estar precisando de ajuda. Ele pode ter se ferido.
	No, olha l! Ele saiu do carro so e salvo.  Finn engatou a primeira marcha e acelerou.  Mas vai ter que mandar desamassar o pra-lama.
	Ns temos que voltar. Lucas pode estar precisando de ajuda.
	Ser que enlouqueceu? Aquele homem atirou contra ns, est lembrada?
	Mesmo assim, ele pode estar precisando de ajuda.
	Lucas saiu andando do carro. Garanto que nada aconteceu com ele. S o carro dele ficou destrudo. E agora, v se dorme um pouco.
Meia hora depois, Carla que estava tentando dormir, abriu os olhos e disse:
	No consigo. Estou tensa demais para dormir.  Ela olhou para tr.
	Relaxe. No tem ningum nos perseguindo.
- Os homens do Lucas poderiam estar viajando em outro carro.
	Pode ser que sim, mas acho que ele estava sozinho o tempo todo. Bem, pelo menos no carro azul s estava ele.
	Eu estou com medo.
	Por qu? Por que agora voc resolveu ficar com medo?
	No sei. De repente, comecei a me sentir muito insegura.
	Isso logo passa.
	Se voc deixasse eu pegar a direo, tenho certeza que me acalmaria.
	Pode perder a esperana. No vou deixar voc voltar a dirigir.
	Por qu?
	Carla, eu no nasci ontem. Se deixar voc dirigir, tenho certeza que vai voltar para ver o que aconteceu com aquele bandido.
	Coitado do Lucas...
	E voc ainda tem pena dele? Eu no acredito!
	O Lucas no  to mau assim.
	Carla, quando  que vai entender que esteve para se casar com um bandido? Se ele tivesse tido a menor chance, ns dois estaramos mortos. E no venha me dizer que Lucas Finzi seria incapaz de matar uma mosca. Eu me nego a ouvir isso!
Carla, profundamente desgostosa, ficou em silncio.
"Ser? Ser que o Lucas teria nos assassinado se tivesse tido oportunidade? Acho que no chegaria a um extremo desses. Afinal, a gente se conhece desde criana."
	O que foi? Resolveu me punir como seu silncio?  Lucas perguntou.
	S estava pensando.
	No pense muito que no vale a pena.
	Para voc  muito fcil falar. Mas a minha situao  muito delicada.
	E a minha? Acha que a minha situao  muito confortvel?
	Voc apenas est atrs de emoes, atrs de matrias para escrever, Finn. Mas eu estou jogando toda a minha vida para o alto. At agora no medi as consequncias dos meus atos.
	Acho melhor fazer isso quando estiveF s e salva na Inglaterra. No d mais para se arrepender, Carla. J fomos longe demais.
	Estou me sentindo muito insegura.
	Deixe para resolver tudo na Inglaterra.
	Finn? Ser que no entende? Acontece que, at ontem, a minha vida era toda programada. Eu tinha hora para acordar, para almoar, tomar banho, jantar e dormir. E agora...
	Por favor, no comece a chorar. Detesto ver uma mulher chorando.
	Eu no vou chorar. Mas estou me sentindo mesmo muito insegura. Nem roupas para vestir eu tenho.  Ela deu um profundo suspiro.  Voc ainda no me respondeu uma pergunta que eu lhe fiz.
	E que pergunta  essa?
	At agora no entendi porque resolveu fazer o que fez l na igreja.
	Simplesmente porque detesto ver a vontade de uma pessoa desrespeitada.
	Como assim?
	Voc disse que no queria se casar e ningum lhe deu a menor ateno. A, resolvi agir. Foi isso o que aconteceu. E agora, por favor, procure descansar um pouco. Tenho muito em que pensar.

CAPITULO IV

Depois de muito tentar, Carla conseguiu dormir apenas meia hora. E ela j no estava suportando mais os quilmetros e quilmetros de uma estrada que parecia no ter mais fim. Finn, depois do episdio que acontecera com Lucas, tinha resolvido chegar  Frana por outra estrada.
Carla, naquelas alturas dos acontecimentos, temendo a nova vida que a esperava num pas desconhecido, estava mais confusa que nunca.
Finalmente o pedgio que ficava um pouco antes da fronteira com a Frana apareceu.
	Lembra do papel que nos entregaram naquele ltimo pedgio, onde constava tudo o que tem dentro do carro?  Finn perguntou.
	Aquele que o vento levou das minhas mos?
	Exatamente. Eu deveria entreg-lo nesse ltimo pedgio.
	E agora?  Carla perguntou, aflita.
	Bem, vou tentar dar um jeito.  Muito sorridente e usando de todo seu charme, Finn explicou  moa que se encontrava no pedgio o que havia acontecido.
"Essa italiana tambm vai ficar hipnotizada por ele!" E Carla estava certssima. Os dois passaram pelo pedgio
sem o menor problema.
"Eu sabia! Ningum est imune ao carisma e ao charme de Finn Cormac!"
	Viu s? Conseguimos!
	Eu vi  ela respondeu, bastante insatisfeita.
	Mas acho que para entrar na Frana poderemos ter problemas.
	Que tipo de problema?
	Voc trouxe o seu passaporte?
	E voc acha que eu ia para a igreja me casar com o passaporte na mos? E, depois dessa histria de Unio Eu ropeia, no esto mais exigindo passaportes.
	Mesmo assim, voc deveria ter trazido algum documento.
	Voc s pode estar brincando.
	No estou brincando, no.
	Bem, o jeito  eu ir para o porta-mala.
	De maneira alguma. Se encontram voc no porta-mala a, sim,  que a situao pode ficar feia. Acho melhor voc ir para trs e se deitar. Cubra-se com o cobertor que est na parte de trs d banco.
	E onde voc quer que eu me deite? No cho? No cho no vai dar. E muito estreito.
	Deite-se no banco e cubra-se, Carla. Da ltima vez que passei por aqui, ningum me parou.
Carla foi para o banco de trs, deitou-se e se cobriu.
	Agora fique bem quietinha.  Ele diminuiu a velocidade do carro.  Dentro de no mximo um minuto esta
remos passando pelos guardas.
Carla, apavorada, susteve a respirao. Momentos depois, Finn comeou a acelerar o veculo.
	Pronto! Estamos na Frana, Carla! Pode voltar para o meu lado.
Aliviada, Carla voltou a sentar-se no banco de passageiros.
	Que alvio!
	Eu tambm fiquei muito preocupado.
	Voc? Preocupado? No acredito nisso, Finn Cormac. Mas no acredito mesmol Tenho certeza que jamais se preocupou com coisa alguma durante a vida toda.
	Mas  claro que eu fiquei preocupado.
	Nesta madrugada, quando nos encontramos com Lucas, voc se manteve muito frio.
	O fato de eu me manter frio no significa que no tenha ficado muito preocupado. At fiquei com medo.
	No me venha com representaes. Pelo que pude perceber at agora, para voc tudo na vida  uma grande festa.
	Est redondamente enganada, mocinha. No posto, quando voc foi ao banheiro e demorou para voltar, cheguei a ficar desesperado de tanta preocupao.
	O seu desespero, como acho que j lhe disse, foi por medo de no ter material para escrever a sua coluna de fofocas.
	Voc est sendo muito injusta comigo. Logo eu, que estou fazendo tudo para ajud-la.
	Isso  puro interesse. Voc, durante o tempo que dormiu, parecia que estava numa cama de um hotel cinco estrelas. Nada parecia capaz de perturb-lo. Eu, no pouco que consegui dormir depois do encontro com Lucas, s tive pesadelos.
	Eu percebi.
	O que foi que percebeu?
	O seu sono foi muito agitado. E voc falou um monte de coisas.
	 mentira!  ela exclamou.  Eu no falei absolutamente nada quando dormia. "Ser? Ser que disse algo que no devia?", ela se perguntou em pensamento.
	Falou. Falou, sim, coisas interessantssimas.
	E mentira!  Carla voltou exclamar, ressabiada.
Finn ficou calado. Carla, ao seu lado, estava se sentindo muito mal com a possibilidade de, dormindo, ter cometido algum indiscrio.
	Por que esse silncio todo?  ele quis saber.
	S estou sentindo um pouco de dor de cabea.
	Isso tudo porque eu lhe contei que falou enquanto dormia?
	No  nada disso, Finn. Acho que vivi muito mais nessas ltimas horas do que na minha vida inteira.
	Bem, se a sua dor de cabea se deve  brincadeira que fiz, fique sabendo que, quando dormia, voc disse apenas algumas palavras ininteligveis e deu alguns gritos.
	Gritos? Eu gritei?
	Gritou. E quando gritava eu conseguia entender o que estava dizendo.
	E o que era?  Carla perguntou, curiosa.
	Voc dizia a palavra no. E tive a sensao que, no sonho, voc falava com Lucas.
	Por que no poderia estar falando com voc?  ela ironizou.
	Porque, minha doce italianinha, se estivesse falando comigo estaria sorrindo.
"Doce italianinha? O que deu nesse homem agora?"
	Voc realmente no leva nada a srio, no  mesmo?
	Mas  claro que levo. Levo muito a srio os direitos humanos, a paz mundial, a luta contra a extino das baleias...
	A, voc, apesar de saber muito bem sobre o qu estou falando, est brincando de novo.
	Me desculpe, voc estava se referindo a coisas srias tal como ser perseguido e caado por um bandido como o Lucas.
	Voc no tem jeito mesmo.  Carla desistiu de continuar conversando com ele e sugeriu:  Que tal, agora, eu pegar na direo? Estou tima e voc est com uma cara pssima.
	Certo.  Finn parou no acostamento. Carla assumiu o volante e partiu.
	Siga as placas que indicam Nice e Monte Cario. Se algo acontecer, seja l o que for, me acorde imediatamente. E no corra muito.
	Certo, capito!
Finn dormiu quase que imediatamente. E Carla comeou a se sentir eufrica.
"Meu Deus, ontem quando acordei tinha certeza que uma nova vida me esperava. E rezei bastante para que tudo desse certo para mim. Mas no esperava tanto: no me casei com Lucas e agora estou na Frana. E o melhor de tudo: livre! Isso  bom demais para ser verdade."
Carla, ao perceber que algo poderia estar errado com o carro, resolveu agir:
	Finn! Por favor, acorde!
	O que foi?  Ele abriu os olhos e se fez de espantado.  Demos uma trombada e estamos na porta do cu esperando por So Pedro?
	No, no demos uma trombada e nem estamos na porta do cu esperando por So Pedro.  Ela no pde deixar de rir.  Mas o carro est fazendo um barulho muito estranho.
	Barulho?  Finn comeou a prestar ateno no desempenho do veculo.
	Alm do barulho, ele j no est mais desenvolvendo tanto quanto antes. Se eu tento acelerar, a coisa piora.
	Voc entende de mecnica?
	Infelizmente, no.
	Nem eu.  Ele deu uma esticadinha no pescoo para olhar o painel.  Mas j sei o que est acontecendo.
	E o que ?
	D uma olhada no relgio que marca a temperatura.
	Est bastante alta  ela disse, aps ter olhado o painel.
	E s agora voc viu isso?
	E voc queria o qu?
	Queria que prestasse mais ateno nos indicadores do painel. Pensei que fosse uma boa motorista.
	E sou uma boa motorista. Mas no me ocorreu olhar para o painel.
	O motor no vai aguentar muito tempo.
	E isso no o preocupa?
	No. Nem um pouco. E s deix-lo em algum posto e avisar a empresa que alugou o veculo. Eles cuidam de tudo.
	E ns? O que vamos fazer? Vamos seguir a p?
	Sabe que no  uma m ideia? Preciso me exercitar um pouco, e nada como uma boa caminhada para manter a forma.
	Voc s pode estar brincando. Se esqueceu que estou descala? No posso continuar a p.
	Claro que pode.  Quem o visse falar, podia jurar que Finn no estava brincando.
	No vai dar. Ser impossvel andar descala.
	Tudo bem, ento, assim que ns pararmos num posto, compro um par de tnis para voc. A, a caminhada fica fcil. 
Carla, resolveu no fazer nenhum comentrio.
"Se esse maluco est achando que vou continuar essa viagem a p, ele est redondamente enganado."
Logo em seguida, numa descida, o carro parou de funcionar. Carla, com muita habilidade, foi para o acostamento.
	E agora?  ela quis saber.
	Bem, pelo jeito voc ter que ir descala at Monte Cario.
	Pare de brincar, Finn! No estou gostando nada disso!  ela explodiu.
	Nem eu. Mas como no apareceu nenhum posto e esse carro resolveu parar de vez, temos que fazer alguma coisa.
	Voc no est pretendendo continuar a p, est?
	E voc tem uma ideia melhor?
	Tenho. Pegue o seu celular e pea ajuda.
	No trouxe o meu celular. Portanto, temos que caminhar.  Ele olhou para fora do carro.  Mas acho que no ter problema. Todo o acostamento est recoberto por uma grama que parece bem macia.
Naquele instante, Carla viu que Finn no estava brincando. Ele desceu do carro, abriu o porta-mala, pegou o saco de plstico que continha o vestido e perguntou:
	Voc vai levar isso aqui?
	Mas  claro qu vou. J disse que esse vestido  um autntico Elsa Schiapparelli.
	Se esse vestido  assim to importante para voc, ele vai conosco.
	O vestido no  importante para mim.
	Mas voc acabou de falar que...
	Eu quis dizer que ele  muito valioso  Carla o interrompeu.  Mas isso no significa que seja importante para mim.
	No vou discutir com voc. Como j disse, a gente leva o vestido. Agora, daria para pegar a minha sacola que est na parte detrs e a minha maleta?
Carla, cansada, seguia atrs de Finn.
"O meu grande medo  que o Lucas aparea. A, o que ns vamos fazer? Ele est com muita raiva de mim. E com muita raiva do Finn tambm. E eu... no estou aguentando mais caminhar."
	Finn?
	O que foi?
	Voc est mesmo afim de ir a p at Monte Cario?
	De jeito nenhum.
	Ufa!  Ela respirou aliviada.
	Daqui a uns cem metros tem uma outra rodovia. L  mais fcil pegar uma carona.
	Quer dizer, ento, que vou ter que caminhar mais cem metros?
	Se quiser, posso lev-la no colo  ele sugeriu, com uma certa malcia no olhar.
	Muito obrigada, prefiro continuar caminhando.
Havia meia hora, Finn e Carla estavam pedindo carona.
	Acho que aquele Mercedes branco vai parar.
O carro, como j tinha acontecido com alguns outros, ao chegar prximo aos dois, acelerou e foi embora.
	De novo! De novo a mesma coisa! Por que ser que eles no esto querendo dar carona para a gente?
	Acho que no gostaram da roupa que est usando. Se colocasse o vestido de noiva...
	Voc sempre acha um jeito para brincar, no ?  Ela estava zangada.  Se eu colocasse o meu vestido de noiva a, sim, eles no parariam.
	Pelo menos poderamos tentar  Finn insistiu.
	Por que voc no pe voc o vestido? Com essa barba por fazer, esses cabelos despenteados, ia ficar uma noiva e tanto!
	Sabe que no  uma m ideia?  Ele fez meno de tirar o vestido do saco plstico.
	Pelo amor de Deus!  ela gritou.  Estava apenas brincando.
	Pensei que estivesse falando srio.
	Se voc colocasse o meu vestido era bem capaz de nos levarem para um hospcio. Olha l!  Ela apontou e comeou a dar sinal com o dedo.  Talvez o motorista daquela Toyota nos d carona.
Mas o motorista da Toyota os ignorou. Carla, desanimada, sentou-se no acostamento.
	No pensei que os franceses fossem assim. Achei que seria a coisa mais fcil pegar uma carona.
	E quem disse que todos que nos negaram carona eram franceses? Muitas chapas no eram daqui.
	Voc observa todos os detalhes, no ?
	Fao o que posso.
De repente, um velho caminho apareceu andando bem devagar.
	E ento? No vai pedir carona a ele?
	Acho que esse caminho no aguenta nem mais um quilmetro. Deixe-o ir embora.
Mas, para surpresa dos dois, o motorista saiu para o acostamento e parou a uns trs metros deles.
	No acredito!
	Pois pode acreditar, madame. E a chapa do caminho  daqui da Frana.
Finn foi conversar com o motorista e quando voltou, disse com um sorriso nos lbios:
	Agora, poderemos seguir viagem.
	Naquele caminho?
	Pelo menos no ficaremos aqui no acostamento.
	E eu vou na frente com o motorista?
	Ns dois vamos na frente. A no ser que queira ir na carroceria junto com um carregamento de tomate.
	No, muito obrigada.
O motorista do caminho, um senhor bastante simptico, os recebeu muito bem. Carla, no entanto, no entendia uma s palavra do que monsieur Martin dizia. Finn, por sua vez, comeou a bater um longo papo com o francs.
	Por que no aproveita para dormir?  Finn sugeriu em um dado momento.
	Onde? L com os tomates?
	No, aqui mesmo.
	Mas a cabine  muito pequena.
	Encoste a cabea no meu ombro.
	De maneira alguma.
	V se fala comigo de um jeito mais suave. Monsieur Martin pode estranhar o  seu  comportamento.  Ele est achando que somos casados.
	Voc disse isso a ele?
	No, mas foi isso que ele concluiu.
A viagem continuou. Em um dado momento, no resistindo ao sono, Carla acabou dormindo recostada no ombro de Finn e s foi acordar quando o caminho parou.
	Onde ns estamos?  ela perguntou assustada.
	Em Monte Cario.
	Eu dormi.
	Eu vi.  Ele sorriu.  E roncou muito.
	Eu no ronco.
O velho francs, muito calmo, esperava que eles decidissem descer do caminho. E foi o que os dois fizeram, depois de agradecerem pela carona.
	E agora?  Ela olhava para as pessoas que passavam na rua, todas impecavelmente vestidas.
	Agora o qu?  Finn se fez de desentendido.

	Estou me sentindo pssima. Estou suja, descala... E todas essas pessoas nos olhando...
	Carla, o que mais voc desejaria que lhe acontecesse neste momento?
	Posso sonhar  vontade?  ela perguntou.
	Pode.
	Bem, eu adoraria tomar um belo banho, vestir roupas limpas e dormir por horas numa cama bem grande. A, eu acordaria e comeria uma bela refeio.  Ela parou de falar e, muito sem graa o fitou.  Bem, voc disse que eu podia sonhar  vontade...
Finn se aproximou dela e disse baixinho:
	Eu vou beij-la, Carla Gambini. Preciso ter certeza que voc  real e no fruto da minha imaginao.
	Pare de brincar comigo, Finn.
	No estou brincando. E a primeira vez que vejo uma mulher em plena Monte Cario dizer que suas prioridades so um banho e uma cama bem grande.
	Voc no entendeu direito o que eu quis dizer.
	Entendi. Entendi, sim. E vou beij-la.  O beijo foi terno, muito suave. Depois de se afastar, Finn disse:  E agora, vamos procurar um bom local para tomar um belo banho.
	Mas a gente no vai continuar fugindo?
	Com toda certeza, mas antes precisamos de um belo banho e muitas horas de sono.  Finn colocou as mos sobre os ombros delicados.
	No me toque.  Ela se afastou.
	O que foi que aconteceu?  Finn perguntou espantado.
	No quero que volte a me beijar.
	No acredito no que estou ouvindo.
	Pois pode acreditar. No quero mais saber de beijos, entendido?
	Voc est dizendo exatamente ao contrrio do que o seu corpo expressou h pouco.
	Meu corpo no tem nada a ver com isso! E nunca mais toque em mim!
	Certo, certo... No precisa ficar to brava.
Muito sem graa, por causa da roupa que usava, Carla estava sentada num imenso sof de um dos hotis mais luxuosos de Monte Cario.
"Todo mundo aqui deve estar pensando que sou uma rica excntrica. Meu Deus, jamais pensei que um dia pudesse viver uma situao como essa. E Finn? Onde ser que ele se meteu?"
Cinco minutos depois, com uma chave nas mos, Finn apareceu.
	E ento?  ela quis saber.  Algum problema com o hotel?
	No, nenhum. Est tudo certo.
	E, pelo que vejo, voc aproveitou para pedir um quarto de casal com uma s cama.
	No tive outra opo.
	Voc est mentindo, Finn Cormac.
	No, desta vez estou dizendo a mais pura verdade. Vai ter que me aguentar dormindo ao seu lado.
	Voc planejou isso tudo.
	Claro! Planejei o seu casamento, a sua fuga, o carro enguiado, a carona com aquele francs maravilhoso e agora um quarto s para ns dois.
	Tudo bem, eu durmo no cho.
	tima ideia!  Ele sorriu satisfeito.  Voc dorme no cho e eu na cama. Nada mais justo.
Carla olhava atnita para a cama de casal.
	E ento?  Finn perguntou.
	J disse que vou dormir no cho.
	Dizem que faz bem para a coluna. Eu, por minha vez, vou dormir numa bela cama.  Sem dizer mais nada, ele se encaminhou para uma porta e a abriu.
	Voc!  ela exclamou.  No consegue ficar um s minuto sem me atormentar.
	Adoro atorment-la, Carla. Como ? Ficou feliz?
	Por que no me disse antes que amos ficar em duas sutes conjugadas?
	Porque eu adoro ver voc brava. Bem, se me der licena...  Ele foi para a outra sute e fechou a porta.
Carla, ento, se dirigiu ao banheiro, despiu-se e encheu a banheira com gua morna e sais. Em seguida, mergulhou o corpo na gua perfumada e l ficou durante um bom tempo.
	Isso era tudo o que eu queria  ela disse mais tarde, enquanto se enxugava numa toalha branca macia.  Agora s quero dormir.
Ela, ento, vestiu um roupo que estava no banheiro, foi para a cama e dormiu imediatamente.
Quando Carla acordou, j tinha amanhecido.
"Como eu dormi! Acho que nunca na vida tinha ficado to cansada. E agora... Bem, agora estou num pas estranho, na companhia de um quase desconhecido. O que ser que o destino me reserva? E se, quando chegar na Inglaterra e no encontrar Sarah? A, sim, a minha situao vai ficar insustentvel." Ela deu um profundo suspiro. "No, eu no posso voltar para a Itlia. Meu tio deve estar uma fera comigo. E acho que ele nunca vai me perdoar. Bem, a nica coisa que posso fazer  manter a calma e continuar essa minha viagem maluca para a Inglaterra. Depois eu penso no que fazer."
Ela sentou-se na cama e, em seguida, se levantou. Devagar, se encaminhou at  janela. L fora a manh estava muito bonita.
	Monte Cario! Nunca pensei que um dia iria me hospedar num hotel em Monte Cario...

CAPITULO V

inda junto  janela, Carla apreciava a linda anh de Monte Cario. De repente, ouviu distintamente uma conversa vinda da sute de Finn.
	Ele deve estar ao telefone.
Em seguida, ela ouviu Finn dizer a palavra Carla. "Que histria  essa? Tenho certeza que ouvi o meu nome." Devagar, ela se aproximou da porta que separava as duas sutes e ficou escutando.
	Mas  claro que no  ele continuou.  Por quem voc me toma? Ela no suspeita de nada. Certo. Tudo bem. No vou arriscar. Tchau.
"Com toda certeza, a conversa j terminou. Sei que no  um comportamento muito civilizado ficar ouvindo atrs das portas, mas no podia fazer outra coisa. Finn estava falando com algum sobre mim. O que ser que ele est tramando? E o que ser que quis dizer com a frase ela no suspeita de nada. Do que eu deveria suspeitar?
Muito preocupada, ela voltou para a cama e se cobriu com os lenis.
"Com quem ele poderia estar falando?"
Mil perguntas continuaram a passar pela cabea de Carla. E, por mais que fizesse, no encontrava resposta para nenhuma delas.
Cerca de quinze minutos depois de ter voltado a se deitar, Carla ouviu a porta de ligao entre as duas sutes sendo aberta.
"E agora? O que vai acontecer? Como devo agir?"
	Carla, voc j dormiu demais.  hora de levantar. 
Ela fingiu que estava dormindo.
	No adianta tentar me enganar. Pela sua respirao, tenho certeza que est acordada. Portanto, levante-se.
	Quer fazer o favor de sair do meu quarto?  ela disse, enquanto ajeitava o travesseiro.

	No, eu no vou sair daqui. Estou pensando em me enfiar com voc sob os lenis. Adoro ficar na cama pela manh.
	Nem pense em fazer uma coisa dessa!
	Por qu? A, ao seu lado, me parece um lugar muito aconchegante.
Carla, imediatamente, puxou os lenis at perto da boca. Finn, por sua vez, num salto, deitou-se ao lado dela e colocou as mos sob a cabea.
	Por que fez isso?  ela perguntou, bastante assustada.
	Para esperar.
	Para esperar o qu?
	Esperar que voc se vista,  claro.
	Voc  muito abusado, sabia?
	Mas  claro que eu sabia.
	Por que no vai deitar na sua cama?
	Estou achando essa muito mais gostosa.  Finn virou-se de lado, apoiou a cabea em uma das mos e ficou olhando para ela.
	No gosto que me olhem desse jeito.
	E de que jeito eu estou olhando para voc?
	No se faa de inocente, Finn Cormac.
	Mas eu sou, sim, um homem completamente inocente.
Mas agora, voc vai se levantar e se vestir. E tem que fazer isso rapidamente.
	Por qu?
	Lucas est vindo para c.
	O qu?  ela perguntou, assustada.
	 exatamente isso que voc ouviu. Portanto, levante-se dessa cama e vista-se.
	Antes quero que volte para o seu quarto.
	Certo.  Ele sentou-se na cama.
	Eu disse para voc ir para o seu quarto, no para continuar na minha cama.
	Onde colocou as roupas que usava?
	Elas ficaram no banheiro.
	Esquea aquelas roupas.
	Como posso esquecer das roupas? Quer que eu viaje nua?
	No seria uma m ideia.
	No seja atrevido!
	Bem  ele sorriu , poderia vestir outra vez aquele seu vestido de noiva. Voc fica linda dentro dele.
	No me amole, Finn! Vou usar a mesma roupa e...
	No vai, no!  Ele saiu da cama, foi at a sute que ocupava e voltou com vrias sacolas nas mos e as colocou sobre a cama.
	O que  isso?  ela quis saber.
	Enquanto dormia, fiz algumas comprinhas para voc.
	Para mim?  Carla perguntou incrdula.  E como sabe se vou gostar delas? E como sabe se elas vo me servir?
	Bem, se elas no servirem, voc pode usar de novo o meu short e a minha bata. Que tal? No  uma boa ideia?
	Mas eu...
	Chega de conversa, Carla. Levante-se e apronte-se. A gente precisa continuar fugindo.
Sem dizer mais nada, ele voltou para a sute que ocupava e fechou a porta.
Carla, rapidamente, foi ver o contedo das sacolas.
Finn tinha lhe comprado, alm de um par de sapatos e um par de tnis, algumas camisetas, duas calas jeans, dois vestidos de algodo e trs conjuntos de calcinha e suti. Tudo muito simples, mas de muito bom gosto.
Cinco minutos mais tarde, vestida com um dos jeans, tnis e camiseta, ela batia na porta que separava as duas sutes.
	Entre.
Carla abriu a porta, mas no deu um passo sequer na direo da sute dele.
	E ento?  Finn quis saber.  As roupas serviram?
	Serviram, sim. Muito obrigada.  Ao ver que Finn se aproximava, Carla deu um passo trs.
	Voc est muito bonita. Essa camiseta vermelha combina muito com o seu tom de pele.  Ele se aproximou mais.  E, de novo, estou com muita vontade de dar um beijo nesses lbios sensuais.
	No se atreva, Finn Cormac.
	Mas  claro que vou me atrever.
	Se tocar em mim, vou comear a gritar.
	Ento, pode comear.  Ele deu um sorrisinho maroto.  Pois eu vou, sim, beij-la.
Carla, ento, deu outros passos para trs e acabou esbarrando na cama.
	Como ? Vai ou no vi comear a gritar?  ele a provocou.
	Voc  o homem mais desprezvel que encontrei sobre a face da terra.
	Mais do que o Lucas?
	Bem mais que ele.
	Puxa vida! Meu conceito est mesmo baixo.
	Ele, pelo menos, nunca me beijou  fora.
	Eu tambm nunca a beijei  fora. E voc sempre correspondeu aos meus beijos.
	E mentira.
	Mentira?  Ele riu.  No  mentira, no, Carla Gambini. Voc adora os meus beijos e garanto que est morrendo de vontade de ser beijada de novo.
	Como voc  prepotente!
	Prepotente, arrogante e o qu mais?
	Pare com isso, Finn.
	Parar com o qu? Eu no estou fazendo nada.
	Voc disse que ia...  ela interrompeu a frase na metade.
	No, pode ficar tranquila. Eu no vou mais beij-la.
"Por qu?", Carla teve vontade de perguntar, mas se manteve em silncio.
	No vai me perguntar o porqu?
	No, eu no vou.
	Pois eu fao questo de lhe dizer: perdi a vontade.
Acho que voc ainda est muito ligada ao seu marido.
	Marido? Voc enlouqueceu? Eu no sou casada.
	Foi s fora de expresso. Mas tenho certeza que ainda est muito ligada ao Lucas. No deve ter sido fcil deix-lo.
	No est sendo fcil para mim deixar a minha famlia.  Quanto ao Lucas, no sinto a menor falta dele.
	No acredito nisso. Afinal, vocs passaram muitos anos juntos.
	Mas  a mais pura verdade. No sinto a menor falta do meu ex-noivo.
	O seu tio e o Lucas praticamente so a sua famlia, no  isso? Pelo que li, quando o pai de Lucas morreu, o seu tio resolveu tomar conta dele e praticamente o adotou como se fosse seu filho, a despeito da opinio do resto da famlia Finzi, que sempre teve certeza que tanta solidariedade se devia ao fato do seu tio estar de olho na herana do Lucas.
Pasma, Carla olhava para Finn.
	O que foi? Disse alguma inverdade?
	Me esqueci, sr. Cormac, que sabia muito a respeito da minha vida  ela respondeu com extrema frieza.  O que est tentando fazer? Uma entrevista para o seu novo livro? Ser que tambm no quer fazer perguntas sobre a fbrica de sorvete de um primo meu? Tenho um outro primo que trabalha com leo de oliva. Que tal fazer algumas perguntinhas sobre ele? Talvez eu possa ajud-lo bastante a botar mais lixo no papel!
	Voc est muito nervosa.
	E no  para ficar?
	Acho melhor voc relaxar. No adianta ficar assim.
  E de que jeito voc quer que eu fique? Acha que  muito fcil deixar tudo para trs sem ter a menor perspectiva de futuro? No, no  nada fcil. Sou uma desertora.
	E assim que voc se sente? Como uma desertora?
	No  isso exatamente que eu sou?  Ela estava muito aflita.
	Tenho certeza que seu tio vai acabar entendendo a atitude que tomou. Afinal, voc nunca amou Lucas Finzi.
	A minha famlia no d tanta importncia assim ao amor.
	No?
	No, para eles existem coisas bem mais importantes.
	O qu, por exemplo?
	Honra, dever e coisas desse gnero. Uma vez meu tio me disse que desistiu do grande amor de sua vida porque a honra da famlia vem sempre em primeiro lugar.
	E ele esperava que, pela mesma razo, voc se casasse com o Lucas.
	Esperava, sim...
	Quantos anos voc tem, Carla?
	Acabei de completar vinte e um. Ontem foi o meu aniversrio.
	E por que voc no me disse nada?
	E por que eu deveria?  Ela deu de ombros.
	A gente poderia ter comemorado.
	Como? Como poderamos comemorar o meu aniversrio fugindo desesperados do meu ex-noivo?
	Sei l... Mas eu, pelo menos, poderia ter cantado Parabns a voc.
	Acho que essa fuga foi uma grande loucura. Mais cedo ou mais tarde, eles vo acabar me encontrando. Se desse, eu ia me internar num convento, ou ia direto para Marte.
	Um dia voc no vai mais precisar fugir.
Uma batida na porta da sute a deixou muito assustada.
	Lucas. S pode ser ele.  Apesar do medo, Carla foi ver de quem se tratava.
Ao abrir a porta, deu de cara com um casal. Finn, que a seguira, conversou com os estranhos e depois fechou a porta.
	Quem so esses dois?  ela quis saber.
	Eles so policiais e vo nos ajudar.
	Ajudar? Como?
	Eles esto atrs do Lucas, do mesmo jeito que ele est atrs de voc. E a armadilha ser perfeita para prend-lo.
	E a Inglaterra? E Sarah? Eu pensei que a gente fosse continuar fugindo.
	No adianta continuar fugindo, Carla. Voc precisa enfrentar a situao de uma vez por todas. E tem que ajudar a polcia a prender o seu ex-noivo.
	No, eu no posso fazer isso.
	Pode. Pode e deve.
	No, isso  impossvel.
	Por qu? Por que  impossvel? Voc ainda o ama?
	No, eu nunca o amei. E voc sabe disso.
	Ento, por que no quer nos ajudar a prend-lo?
	Como voc mesmo disse, Lucas faz parte da minha famlia. E quase me casei com ele.  Carla deu um profundo suspiro e continuou:  Estou muito feliz por ter fugido, muito feliz... A minha situao era insustentvel. No entanto, mesmo sabendo que meu ex-noivo est atrs de mim, mesmo sabendo que est me caando, no posso concordar em contribuir para que caia numa armadilha.
	Carla, em algum momento lhe passou pela cabea que aquele bandido no fosse segui-la?
	Para lhe dizer a verdade, passou, sim. Mas um dia ele vai desistir de me procurar.
	Voc est redondamente enganada, Carla. Ele jamais vai desistir.
	Vai. Afinal, Lucas tem uma amante e, mais cedo ou mais tarde, ter que voltar para ela.
	Carla, voc est completamente equivocada. Ser que no percebe que a sua fuga o atingiu no que tem de mais caro? Voc o atingiu em cheio em seu orgulho. Lucas no vai descansar enquanto no estiver atada aos ps dele. Por que no consegue enxergar isso?
	Porque estou com medo!  ela gritou.  Ser que no entende? Estou com medo, estou apavorada! E no quero nem pensar que Lucas existe. Por mim, jamais o veria de novo!
	Mas ontem, Carla, ele atirou contra ns. Voc tem que ajudar a polcia captur-lo. No pode mais continuar correndo tanto risco.
	Foi voc quem planejou tudo isso? Foi voc quem resolveu entrar em contato com a polcia enquanto eu dormia?
	Foi. No quero mais que corra risco. Lucas  procurado em vrios pases. No posso perder a oportunidade de tentar v-lo atrs das grades.
	Mas voc deveria ter me consultado antes. Voc, Finn Cormac, agiu do mesmo jeito que Lucas agiria. Ele nunca me respeitou e a sua atitude tambm foi de total falta de respeito.
	Voc est equivocada.
	No, no estou equivocada. Nunca mais na vida vou aceitar ordens de ningum, entendeu? Sou uma mulher livre e estou pagando um preo bem alto pela minha liberdade.
	Bem, se  assim, pode ir embora.  Ele indicou-lhe a porta com muita calma.  Foi um prazer conhec-la. Mas antes de sair, gostaria que me dissesse qual  a flor da sua preferncia?
	Flor?  Ela o fitou, desentendida.
	E, flor. Vou mandar um mao de flores bem bonitas para o seu enterro.
	No seja idiota!
	Estou sendo apenas realista.
	Lucas no teria coragem de me matar.
	Teria, sim. Pode ter certeza que ele teria coragem de mat-la. Ele atirou ou no contra ns? Ou ser que estou mesmo maluco?
	No, Lucas no me faria mal. Ele respeita muito o meu tio.
Finn refletiu um pouco e disse:
	Acho melhor voc se sentar.
	Eu no quero me sentar.
	Por favor, Carla, sente-se  ele pediu com extrema delicadeza.
Atordoada, Carla sentou-se na cama e perguntou:
	O que voc est me escondendo?
	Bem, o seu tio sofreu um ataque.
	Um ataque?  Ela levou as mos na cabea.  Quando? Onde?
	Na igreja, depois que voc fugiu.
	Meu Deus! Meu tio morreu!  Carla comeou a chorar desesperada.  Eu tenho que voltar.
	Voc no pode fazer isso Carla.
	Posso. Posso, sim. Meu tio  como se fosse meu pai. E ele morreu.
	Ele no morreu.
	Graas a Deus.  Ela se levantou.  Graas a Deus ele est vivo para me perdoar. Vou para l agoral
 
	Carla, por favor, fique calma e raciocine.  Ele a segurou pelos braos.
	Me solte! O meu tio est precisando de mim.
	O ataque cardaco que seu tio sofreu no foi grave. Ele est bem. E est internado no melhor hospital de NPoles. Pelo que fiquei sabendo, logo estar tendo alta e voltando para casa.
	Tudo o que aconteceu foi por minha causa. Eu quase matei o meu tio. No deveria ter fugido.
	No seja ridcula.
	Nunca deveria ter fugido e nunca deveria ter confiado em voc!
	E o que est pretendendo fazer quando chegar l? Se casar com Lucas?
	Se for preciso, ser exatamente o que vou fazer.
	E voc acha que um tipo de homem como Lucas Finzi vai querer se casar com voc depois de ter sido abandonado no altar? O mnimo que ele pode fazer  torn-la mais uma de suas amantes.
	Existe muita crueldade nas suas palavras, Finn.
	Existe muita crueldade na vida. Tenho certeza que se o seu tio no tivesse sofrido o ataque, Lucas no teria tido coragem de sair atrs de voc com uma arma em punho. Tenho certeza tambm que ele jamais ousaria ter atirado contra voc. Mas, pelo que posso deduzir, pela primeira vez na vida Lucas se sentiu muito  vontade para agir ao seu bel prazer. E isso quase teve consequncias gravssimas. Se no fosse aquele revlver de chocolate e a sua percia no volante, com toda certeza ns dois estaramos mortos agora. Pense nisso, por favor! E tem mais um detalhe: de uma certa maneira, foi muito bom que isso tivesse acontecido. Porque, pela primeira vez, a polcia est achando que pode mesmo pegar o Lucas.
Carla voltou a sentar na cama.
	Pensando melhor, acho que voc est certo. Por mais besteira que eu tivesse feito, meu tio jamais permitiria que Lucas sasse atrs de mim como se eu fosse um animal. Mas quando fugi, no pensei que a situao pudesse se tornar to complicada. Eu s queria a minha liberdade, apenas isso.
	Carla, na minha opinio, voc no deveria voltar para a Itlia. Seu tio est bem, acredite. E se no quiser colaborar com a polcia, no tem importncia. Os planos deles vo continuar com ou sem a sua ajuda. O que no podemos  continuar fugindo e nos arriscarmos a sermos assassinados por Lucas.
	Apesar de tudo, no posso colaborar para que o Lucas seja preso.
	Eu sabia, eu sabia que voc iria acabar dizendo isso. A polcia j resolveu tudo.
	Resolveu? Como assim?
	A polcia arrumou uma casa onde podemos ficar em segurana at que essa confuso toda acabe.
	Eu tenho alguma escolha?
	Acho que no.
Depois de uma leve batida na porta, os policiais entraram e tiveram uma rpida conversa com Finn.
	O que eles disseram?  Carla quis saber.
	Disseram que  melhor nos apressarmos.
	Engraado... Tenho a impresso que j vi esses dois.
	Eles so bem parecidos conosco.
	Quer dizer, ento que...
	Por telefone, fiz a descrio de ns dois. A, a polcia francesa arrumou um casal de policiais com as nossas caractersticas. E eles vo ficar hospedados aqui. Com toda certeza, Lucas vai ser informado que estamos hospedados nesse hotel. E quando ele chegar, vai bater de frente com a polcia francesa e ter o que merece.
	Eles vo mat-lo?
	Mas  claro que no. Eles vo prend-lo. A propsito, Lucas nada sofreu no acidente da estrada.
	E como voc sabe disso?
	Faz parte da minha profisso saber de tudo o que acon tece. Principalmente quando a minha vida est em perigo.
	Carla e Finn estavam dentro de um carro preto, muito confortvel, cedido pela polcia francesa.
	Voc tem certeza que eles no vo fazer nenhum mal ao Lucas?
	Tenho certeza absoluta. Os policiais franceses so civilizados. Eles agem rigorosamente dentro da lei.
	E se acontecer um tiroteio?
	Carla, acho que voc no tem que ficar pensando no pior. Tenho certeza que o Lucas no  nenhum suicida. Se Perceber que no tem escapatria, vai acabar de entregando.
	Gostaria de estar to certa quanto voc.
	Que tal pensarmos em coisas alegres?

CAPITULO VI
 Com o meu tio no hospital e com o meu ex-noivo prestes a cair numa armadilha, acha que posso pensar em coisas alegres?
	Tenho certeza que, no fim, tudo vai acabar bem. Agora precisamos passar num supermercado.
	Supermercado?
	Conheo um supermercado maravilhoso, perto daqui. Precisamos comprar comida, Carla.
	Mas comemos muito bem antes de sairmos do hotel.
	Mesmo assim, precisamos comprar comida. No sei quanto tempo teremos que ficar naquela casa.
	Voc, pelo jeito, conhece bem essa cidade.
	No s essa, como outras cidades francesas tambm. Gosto muito desse pas.
	Eu sempre quis conhecer Paris.
	Voc ainda -no conhece Paris?
	No. Infelizmente, no.
	Paris  uma cidade fantstica.
	Ela  mais bonita que Londres?  Carla perguntou, curiosa.
	No d para comparar uma cidade com a outra. Mas Paris  muito mais romntica.
	E voc  um homem romntico?
	Sou, sim. Sou um homem muito romntico. Adoro andar por Paris  noite. Sempre me sinto em paz quando fao isso. E adoro os restaurantes franceses.
At chegarem no supermercado, Finn continuou a falar entusiasmado sobre Paris.
Carla estava encantada com a beleza da regio.  Isso tudo aqui  muito bonito  ela comentou, olhando a paisagem que se descortinava na sua frente.
	E muito bonito, sim.
Ela, ento, recostou a cabea no banco, fechou os olhos e ficou sentindo o calor do sol sobre a pele.
"Como a minha vida mudou... H dois dias estava para me casar com Lucas e agora estou na Frana, rumo a um lugar que no tenho a menor noo de onde fica. Ruim  saber que o meu tio est num hospital. Ser que no tenho culpa pelo que lhe aconteceu? Mas eu no podia me casar com Lucas. Hoje, mais que nunca, sei que no poderia me casar com ele, Onde j se viu? Ele teve a ousadia de atirar contra ns. Se tivesse acertado Finn ou a mim, ou mesmo os dois, poderamos estar mortos. E eu ainda sou muito nova para morrer. Tenho muita vida pela frente.  certo que no tenho a menor noo do que fazer com ela... Assim que der, vou tentar entrar em contato como o meu tio e lhe pedir perdo. Um dia ele vai entender que agi da melhor maneira possvel e tenho certeza que vai acabar me perdoando."
Sentindo que Finn tinha diminudo a velocidade do carro, Carla abriu os olhos e perguntou:
	Estamos perdidos?
	No.
	Tenho a sensao que estamos rodando em crculos h um tempo. No estamos andando em crculos, mas em ziguezague. E culpe o construtor da estrada por isso, no a mim Depois de mais meia hora por aquela estrada fantstica, Finn pegou um caminho  esquerda e logo estacionava em frente a uma casa bem modesta.
Assim que entraram, Carla sentiu que l dentro estava muito abafado.
	Garanto que esta no  a casa dos seus sonhos  ele comentou, com uma certa ironia na voz.
	Por que est dizendo isso? No entendi.
	Entendeu, sim. Tenho certeza que entendeu.
	No entendi, no, senhor.
	Ora, Carla, voc est acostumada a grandes espaos, quelas vilas italianas com um exrcito de empregados para servi-la. Essa casa caberia em um dos armrios do seu tio.
	Sempre gostei de casas pequenas.
	Tem certeza?  ele duvidou.
	Absoluta. Em casas pequenas fica mais difcil perder as coisas.
	Normalmente quem mora em casas pequenas, como essas, tm poucas coisas para perder.  Ele disse, enquanto abria a janela da sala.
	Como sabe? Ser que  daquele tipo de pessoa que sempre viveu em lugares pequenos e adora agredir quem desfrutou de grandes espaos?
	Nem tanto.  Ele lhe deu uma piscadela.
Sem saber o porqu, Carla riu da maneira como ele respondeu  pergunta que fora feita para agredi-lo um pouco.
	Adorei.
	O qu?
	A sua maneira de rir. Ria de novo.
	Voc  mesmo louco.
	No  uma questo de loucura. Voc fica muito atraente quando sorri.
	Pare com isso, Finn.  Ela estava ficando sem jeito.
	Tudo bem. J que no quer sorrir de novo, vamos at ao carro pegar as nossas compras.
J na cozinha, depois de ter guardado as compras que haviam feito no supermercado, Finn perguntou:
	Quem vai cozinhar?
	Eu,  claro.
	Por que esse  claro?
	Porque sou tima cozinheira.
	Duvido.
	Voc acha que uma mulher italiana no sabe cozinhar? Pois est redondamente enganado.
	Pensei que as mulheres italianas s gostassem de dirigir.
	Tambm. Elas tambm gostam de dirigir.
	E o que est pretendendo fazer?
	Uma bela macarronada.
	Voc acertou em cheio: adoro macarronada.
	Mas gostaria tambm de preparar uma salada. Voc lava a verdura para mim?
	Com todo prazer.
Num clima de muita cordialidade, os dois prepararam a comida. Ainda  mesa, depois de terem almoado, Finn comentou:
	E por falar em comida, voc realmente  uma motorista de mo cheia.
	Sei...  ela disse, adorando aquela maneira de Finn provoc-la.
	Pode acreditar em mim, nunca encontrei algum que dirigisse como voc. Agora, como cozinheira, tenho que admitir que voc ...
	Medocre  Carla completou-lhe a frase.
	De jeito nenhum, mocinha, no era essa exatamente a palavra que eu ia usar.
	No? E qual era ela?
	Estupenda.
	Verdade?  ela perguntou contente.
- Pode acreditar. Nunca tinha comido uma macarronada to gostosa.
	E a salada? O que voc achou da salada?
	Estupenda tambm. Preciso tomar cuidado. Com voc cozinhando  bem capaz de eu engordar.
	E voc tem medo de engordar?
	Medo no  bem a palavra certa. Eu tenho receio de engordar.
	Eu, por mais que coma, e eu adoro comer, no engordo. 
	Sorte sua. No meu caso, se no ficar de olho nas calorias que ingiro, logo ganho uns quilinhos.
	Alm de no comer direito, o que voc faz para manter a forma?
	Tudo o que  possvel: caminho bastante, corro, nado, jogo tnis, pratico carat, jogo bolinha de gude...
Carla caiu da risada e perguntou:
	E nas horas vagas voc trabalha,  isso?
	Mais ou menos.
	Fiquei cansada s em ouvir tudo o que voc faz para manter o peso.
	Mas voc me disse que faz ginstica.
	Fao. E muita. Mas nunca fiz ginstica pensando em manter o peso. Ginstica, para mim,  uma maneira intuitiva que encontrei de me manter em contato com o meu corpo.
	Isso que voc disse  muito interessante.
	Mas  a mais pura verdade. No consigo entender como essas pessoas ficam dentro das academias tentando sempre superar o limite do prprio corpo. Para mim, essas pessoas esto se punindo.
	Sabe que nunca tinha pensado nisso?
Os dois continuaram conversando de maneira amigvel. Depois de terem arrumado a cozinha, dedicaram-se ao restante da casa.
Em torno das sete da noite, Carla perguntou a Finn se estava a fim de jantar.
	Depois daquela macarronada toda? De maneira alguma.
	Voc leva muito a srio essa histria de manter o peso.
	E no  para levar? Eu fui uma criana obesa. E, neste caso,  muito mais fcil me tornar um adulto obeso.
	No sabia disso.
	Pois  verdade. Tenho que me cuidar, Carla.
	Bem, se  assim, vou tomar um banho e depois vou direto para a cama.
	Voc no vai jantar?
	No, estou sem fome.
	Isso  mentira. Voc ficou impressionada com a minha conversa.
	No, no fiquei. Estou muito cansada e quero dormir. Se mais tarde sentir fome, eu...
	Voc come a macarronada que sobrou do almoo  ele a provocou.
	Sabe que no  m ideia?  Ela entrou na provocao.  Mas estava para dizer que tomaria um copo de leite, caso sentisse fome.
	Vou fazer de conta que acredito.  Ele riu.
	Bem, vou tomar um banho e ir direto para a cama.
	Tudo bem, tenha uma boa noite de sono.
	Voc tambm.
Deitada, sem sono nenhum, Carla fazia de tudo para se manter quieta na cama de solteiro que ocupava.
"Mas eu tinha de dizer a ele que estava cansada e queria dormir. No dava para continuar conversando como se fssemos velhos amigos. No estou muito acostumada  companhia masculina. At hoje, o nico homem com quem convivi mais foi mesmo o Lucas, e o meu tio,  lgico. E Finn me deixa muito insegura, apesar de ser uma pessoa muito tranquila. E ele j me beijou mais do que uma vez. Se continuasse conversando com ele, tenho certeza que algum clima diferente iria acontecer entre ns dois e a... Bem, a, nem quero pensar!" Ela deu um profundo suspiro. "Na verdade, apesar de tudo, eu me sinto muito bem na companhia do Finn. Ele  alegre, brincalho, mas me parece um homem muito responsvel. De fato, est muito preocupado com o Lucas. Ele tem certeza que aquele desmiolado pode me fazer algum mal. Ser? Ser que o Lucas seria capaz de... Nem quero pensar nesse assunto. S de pensar eu fico apavorada. Hoje, quando comeou a escurecer, comecei a me sentir muito insegura. Tinha a sensao que, a qualquer momento, arma em punho, Lucas poderia entrar aqui nesta casa. Que sensao mais terrvel! Ainda agora estou me sentindo tensa, insegura. Qualquer barulhinho que ouo acho que  o Lucas chegando. ... na verdade, apesar do que aconteceu com o meu tio, fiz muito bem em fugir. O que seria da minha vida ao lado do Lucas? Uma casa imensa para cuidar e filhos, muitos filhos. Mas eu sempre quis ter muitos filhos. Para mim uma famlia tem que ser bem grande. S que vejo agora que nunca quis o Lucas como o pai dos meus filhos."
Uma vozinha interna, de repente, lhe perguntou: "Ento, quem  que voc quer que seja o pai do seus filhos? Finn Cormac?"
"At que no seria uma m ideia", ela respondeu em pensamento. "Mas o Finn no tem o menor interesse por mim. Para ele, no passo de uma grande e perigosa aventura, alm da possibilidade de informaes para escrever um livro. S isso. Mas quando ele me beijou... Meu Deus, nunca na vida tinha sentido aquele tipo de sensao. Foi bom demais. Nunca o Lucas tinha me despertado algo parecido. Nunca mesmo."
Apesar de se esforar para conciliar no sono, Carla no conseguia parar de pensar. Em Finn. Devagar comeou a relembrar todos os detalhes desde o momento em que o vira na igreja.
"Voc tem que parar com isso! No pode ficar trancada num quarto escuro pensando em um homem que mal conhece. Finn no quer nada com voc, ser que  muito difcil entender isso? Imagine se iria se interessar por uma italianinha inexperiente que s sabe dirigir e cozinhar! Mas  claro que no. Finn deve estar acostumado a mulheres sofisticadssimas. Afinal ele, alm de jornalista,  um escritor muito famoso. Com toda certeza, gosta de mulheres mais intelectualizadas. E o que voc sabe do mundo? O que voc sabe da vida? Nada. Absolutamente nada."
Aqueles pensamentos comearam a fazer com que ficasse profundamente deprimida.
"Existem tantas mulheres mais interessantes do que eu. Tantas... O que eu tenho de fazer, depois que conseguir um emprego,  me dedicar aos estudos. Eu nunca fui de estudar muito. Sempre fui mais contemplativa. E, na verdade, nunca tive que me esforar muito para conseguir o que quis. Meu tio sempre estava pronto para satisfazer todos os meus desejos."
Carla continuou pensando na vida e tentando fazer planos para o futuro.
 Como est quente aqui  ela disse baixinho.  E eu, por mais que faa, no consigo dormir!
Carla fechou os olhos.
"Eu tenho que dormir. E vai ser agoral"
Mais meia hora se passou. E nada de ela dormir.
"No d mais para ficar na cama. Estou com muita sede."
Carla acendeu a luz do abajur e se levantou.
"Esse pijama que o Finn comprou para mim l na sesso de roupas do supermercado  muito bonito. S que as pernas do pijama so muito mais compridas do que as minhas. Se ainda eu o tivesse visto comprando... Mas naquela hora eu estava escolhendo as verduras."
O pijama era de cetim, estampado com florzinhas muito delicadas.
Carla abaixou-se e arregaou a barra do pijama. Em seguida, abriu a porta do quarto bem devagar.
"Finn j deve ter dormido. A porta do quarto dele est fechada e l dentro parece que est tudo escuro."
P ante p, no escuro, ela foi para a cozinha. L chegando, acendeu a luz e se sentiu muito incomodada com a claridade.
Carla abriu a geladeira e pegou uma garrafa de gua mineral. Enquanto se servia da gua, teve a ntida sensao de ouvir passos do lado de fora da casa.
Sem pensar duas vezes, apagou as luzes da cozinha e tentou ouvir melhor.
"Tem gente l fora. Meu Deus,  Lucas! Ele nos encontrou. E agora? O que eu fao?"
Os passos ficavam mais e mais audveis.
"Agora a pessoa parou. Ser que viu a luz da cozinha acesa? Mas como? Como Lucas pde nos encontrar aqui? S a polcia, pelo que entendi, sabia que a gente vinha para c."
Sentindo as pernas bambas, Carla se encostou na parede e fechou os olhos como se, com aquele gesto, fosse capaz de no mais ouvir os passos que se aproximavam, se aproximavam...
"Ele entrou. Eu ouvi o barulho da porta da frente. Ele entrou e agora est se dirigindo para a cozinha. Eu.."
Carla, desesperada, comeou a gritar. No instante seguinte, sentiu uma mo contra a boca.
Num ato reflexo, ela deu uma cotovelada contra o peito do seu agressor e gritou: 
Fora! Fora desta casa! E fora da minha vida!
O agressor, por causa da cotovelada que o acertara em cheio no peito, gemia.
Decidida, sem saber de onde estava tirando tanta coragem, Carla acendeu a luz e teve uma grande surpresa:
	Finn?  voc?
	E quem voc pensou que fosse, sua maluca?
	Pensei que fosse o Lucas.
	Bem que eu gostaria que ele estivesse no meu lugar. Voc bate muito forte, mocinha. Quase perdi o flego de tanta dor.
	Para quem treina carat, voc no  l muito bom de briga.
Ao invs de responder ao comentrio, ainda com a mo no peito, no lugar onde fora atingido pela cotovelada, ele comeou a rir.
	Qual  a graa?
	O seu pijama! Voc est muito engraada com esse pijama.
S ento ela viu que as pernas da roupa estavam arrastando no cho.
	No vejo graa nenhuma. Quer fazer o favor de parar de rir?
	Eu no consigo. O defunto era maior, Carla?
	Defunto? Sobre o qu voc est falando?
	Deixa para l.  Ele sentou-se numa cadeira e continuou rindo.  Mas acredite: o defunto era maior!
	Voc realmente  um homem surpreendente. Eu quase morro de susto e... Por falar nisso, o que estava fazendo l fora?
	Apreciando a noite.
	Quer dizer, ento, que estava apreciando a noite e a resolveu me pregar um susto.
	No foi bem isso que aconteceu, mas at que foi tudo muito engraado.  Ele voltou a olhar para as pernas do pijama.  Daria para voc arrega-las? Se continuar a, desse jeito, no vou conseguir parar de rir.
Carla, ento, abaixou-se e voltou a arregaar as pernas do pijama.
	Agora melhorou um pouco.  Ele voltou a rir muito.
	Voc andou bebendo, Finn?
	Eu? Bebendo? De maneira alguma.
	No se esquea que foi voc quem escolheu esse pijama.
	Pelo visto, no sou muito bom com pijamas. Tambm, eu no tenho muita prtica. Nunca usei um na minha vida.
	Nunca? Nem para dormir?
A pergunta de Carla, feita de maneira ingnua, fez com que ele comeasse a rir de novo.
	E voc queria que eu usasse para qu? Para ir  praia?
	No foi isso que eu quis dizer.
	Sei exatamente o que voc quis dizer, Carla. Me desculpe, mas no pude controlar o riso. Por favor, me d um copo de gua. Quem sabe esse acesso de riso passa?
Ela lhe serviu a gua. Depois de tom-la, ele comentou:
	S consigo dormir nu.
	Espero que no pegue um resfriado  ela disse a primeira coisa que lhe veio  cabea. E, aps tomar a gua que estava no copo sobre a mesa, falou:  Bem, vou voltar para o quarto.
	No.  Finn se levantou e interceptou-lhe o caminho.  No sem antes me dar um beijo.
E ele a beijou. Intensamente. Carla, meio atnita, correspondeu ao beijo mas, em seguida, o empurrou.
	Por que voc fez isso?  ele perguntou.
	Porque no admito que tome essas liberdades comigo.
	Eu no estou tomando liberdades com voc, sabia? Eu apenas a beijei.
	No quero que me beije.
	Por qu? Tem medo que eu lhe tire algum pedao?
	Olha aqui, Finn Cormac, no quero mais saber de conversa. Boa noite!  Sem dizer mais nada, Carla correu para o quarto, bateu a porta e se jogou na cama.
Cerca de dez minutos depois, Carla ouviu a porta do quarto sendo aberta.
	Carla? Voc est acordada.
Ela nada respondeu.
	Carla, sei que est acordada. Por favor, no fique brava comigo. Me desculpe, est bem?
	Saia daqui!  ela gritou e, em seguida, sentou-se na cama.  No estou interessada no seus assdios sexuais.
	Bem, no vou discutir esse assunto com voc, pelo menos no agora.
	J pedi para sair do meu quarto.
	Eu j vou sair, mas gostaria que se vestisse.
	Para qu?
	Ns vamos embora.
	Para onde?  ela perguntou, espantada.
	Vamos continuar a nossa viagem para a Inglaterra.
	No meio da noite? Ser que voc enlouqueceu?
	No, eu no enlouqueci, mas estou muito desconfiado.
	De qu?
	Desta casa. L em Monte Cario me disseram que ns teramos proteo policial. Acabei de checar tudo l fora e no encontrei nenhum policial. Estamos absolutamente desprotegidos. E a minha intuio me diz que temos que ir embora daqui. Portanto, apronte-se.
	Com isso est tentando me dizer que podemos ter sido enganados? Est querendo me dizer que o Lucas tambm pode ter algum dentro da polcia de Monte Cario?
	 bastante provvel. Posso estar enganado, mas no quero arriscar. 
J fazia meia hora que os dois tinham voltado para a estrada. Finn,  direo, estava muito calado.
	Voc est preocupado?
	Muito.
	Eu tambm. Ser que a polcia nos traiu?
	A polcia no faria isso. Mas algum policial inescrupuloso pode ter colocado tudo a perder. Lucas Finzi  um homem muito poderoso.
	Est pretendendo viajar a noite toda?
	Vamos viajar mais uma hora. Depois vamos parar.
Se no estivermos sendo seguidos, dormiremos um pouco.
Carla recostou a cabea no assento do banco e tentou pensar de maneira objetiva em Lucas. E no foi nada fcil.
	Acho melhor ns pararmos agora.  Finn diminuiu a velocidade do carro. Depois, foi para o acostamento, parou o carro sob uma rvore frondosa e desligou as luzes.
	Agora s nos resta esperar.
E eles no precisaram esperar muito.
	Vem vindo um carro  ele comentou.  Mas no se preocupe, pode ser apenas algum turista.
	Ou algum morador da regio voltando para casa  ela disse, tentando demonstrar uma tranquilidade que estava longe de sentir.
O carro se aproximava mais e mais.
	Meu Deus!  o carro do Lucas!  Carla disse apavorada, assim que o carro passou por eles.  Alfa Romeo, placa da Itlia, a mesma cor e parece que o pra-lama estava amassado.
	Tem certeza que era o caro dele?
	Tenho, sim. Certeza absoluta. Ser que ele nos viu aqui?
	Acredito que no.
	O que ns vamos fazer agora?
	O que voc sugere?
	Rezar. Rezar muito.
	Bem, isso ns tambm podemos fazer...  Abriu a porta.

	Onde voc vai?
	Vou dar uma olhada pelos arredores. Temos que sair dessa estrada e pegar uma outra.
	No quero ficar aqui sozinha. Estou apavorada.
	Ento, venha comigo.
Por sorte, aps terem percorrido a p uns cem metros, os dois encontraram uma estradinha de terra.
	Vamos pegar essa estrada.  Finn deu um profundo suspiro.  E seja o que Deus quiser!
Carla estava vivendo horas terrveis.
"Isso mais parece um pesadelo. No estou suportando mais tanta tenso. Essa estrada e as outras pelas quais ns j passamos so perigosssimas. E tambm no estou suportando mais parar a cada quinze minutos e esperar para ver se no estamos sendo seguidos."
	Bem, acho que a gente pode parar naquela hospedaria.  Ele indicou um luminoso adiante e diminuiu a velocidade do carro.
	Agora? Mas j  muito tarde. Todos, com certeza, j esto dormindo.
	Bem, vou ter que usar todo o meu charme.  Pela primeira vez desde que haviam abandonado a casa fornecida pela polcia, Finn ousava brincar.
	Tem certeza que no estamos correndo mais riscos?
	Com aquele mafioso em nosso encalo, no posso ter certeza de nada. Mesmo assim, acho que devemos arriscar. Estamos muito cansados.
Finn estacionou o carro ao lado da hospedaria, num lugar que no poderia ser visto da estrada.
	Bem, vamos.
Devagar, eles desceram do veculo e se encaminharam para a porta da hospedaria. Finn deu trs batidas. Em seguida, as luzes do lado de dentro se acenderam e uma francesa gorda, muito sorridente, com cerca d uns sessenta anos, abriu a porta.
Finn conversou com a mulher animadamente e, instantes depois, os dois entravam.
	Por que ela est to feliz? Ser que faz muito tempo que no recebe hspedes?
	Marie estava parabenizando voc pelo casamento  ele disse, quando j subiam as escadas.
	Mas eu no me casei!  Carla disse, indignada.
	Voc no entendeu direito. Ela estava nos parabenizando pelo nosso casamento.
	Nosso casamento? Que eu saiba, o nosso casamento no aconteceu.
	Mas, depois de dar uma olhada na sua mo esquerda, Marie deduziu que somos recm-casados.
S ento Carla lembrou-se do anel de diamante que havia ganho do tio quando completara quinze anos. Por no gostar de ostentao, ela, sempre que o usava, girava o anel para esconder a pedra. E o que era um anel, parecia ser uma aliana.
	E voc,  claro, no disse nada para desfazer o equvoco.
	Sinto muito, Carla. Por precauo, achei melhor no dizer nada.

CAPITULO VII

Estupefata, Carla olhava para a cama de casal. - Voc acha que vou dormir a com voc?
	Carla, eu...
	Nem pense num coisa dessa, ouviu? Nem pense numa coisa dessa! Quem voc est achando que eu sou?
	Escute, Carla, prometo que no vou encontrar um dedo em voc.
	E acha mesmo que vou acreditar nas suas promessas?
	Acho que est com medo de voc, no de mim.
	Voc  muito engraadinho, Finn Cormac. Muito en graadinho mesmol
: Se no tivesse com tanto medo de voc mesma, garanto que no se importaria em dormir comigo na mesma cama.
	No seja assim to presunoso.
	Voc correspondeu aos beijos que eu lhe dei.
	Mas  claro que eu no correspondi.
	Carla, voc nem parece uma mulher que vive no final do sculo vinte. Custa admitir que se sente atrada por mim?
	Voc  muito convencido. No me sinto e jamais me sentirei atrada por um tipo como voc.
	Isso  mentira.
	E quer saber de uma coisa? Foi voc quem me beijou.
Foi voc quem se aproveitou de mim.
	Eu? Eu me aproveitei de voc? Por causa de uns beijinhos? Voc s pode estar brincando comigo.
	A nica coisa que eu no queria era me casar com Lucas.
	Olha aqui... Ser que no entende que  uma mulher muito bonita, muito atraente? Eu no me envergonho de me sentir atrado por voc, sabia?
	Voc... voc se sente atrado por mim?
	Mas  lgico que sim.
	Eu no acredito nisso.
	Carla, voc  uma mulher muito interessante.
	Pare com isso, Finn.
	 verdade, acredite no que estou lhe falando.
	Para voc eu no passo de uma espcie de brinquedinho, um objeto estranho.
	Voc? Um objeto estranho? Por favor, Carla, no se subestime.
	Tenho certeza que me v como a uma extraterrestre.
	Por favor, pare com isso. Voc  uma mulher belssima, interessantssima... Para resumir, voc  linda. A mulher mais fantstica que vi em toda a minha vida
	Exagerado.
	Pode acreditar, no estou exagerando. E a mais pura verdade. Por que ser que tem tanta dificuldade em enxergar isso?
	No sei.  Ela respirou fundo.  Talvez nunca ningum tenha me dito isso antes com tanta nfase.
	Ningum?  ele perguntou, boquiaberto.
	, ningum.
	No posso acreditar.
	Bem, meu tio sempre me disse que eu era bonitinha. E bonitinha  bem diferente de tudo isso que voc acabou de dizer. A governanta l de casa, Cesarina, tambm vivia me dizendo que eu era bonitinha.
	E voc nunca teve contato com outros homens?
	J, mas contatos muito superficiais.
	Como assim?  Finn quis saber.
	Bem, eles raramente se aproximavam de mim. S ficavam me olhando de longe. Caso ousassem se aproximar, Lucas fazia o maior escndalo.
	E ele? Lucas nunca lhe disse o quanto voc  linda?
	Isso eu no posso lhe afirmar.
	Ser que daria para me explicar melhor o que acabou de me dizer?
	Bem, na verdade, eu nunca me senti muito  vontade com o Lucas. Quando ele comeava a falar alguma coisa mais ntima, eu sempre me abstraa, pensava em um outro assunto qualquer. Portanto, se alguma vez ele disse algo sobre a minha... beleza, eu no ouvi.
	Pensando melhor, ningum precisaria ter lhe dito isso antes, bastaria se olhar no espelho.
	Garanto que diz a mesma coisa para todas as mulheres que encontra.
	Engano seu. Hoje em dia as mulheres, pelo menos as com quem me relacionei, fazem muito uso do espelho e sabem exatamente tudo a respeito de si mesmas.
	No me importo muito com a minha aparncia. O importante  ser bonita para quem a gente ama.
As mulheres italianas, pelo jeito, so muito romnticas.
	Sobre as minhas compatriotas eu no posso falar nada. Mas eu sou, sim, muito romntica.
	Quer dizer, ento, que o importante  ser bonito para quem a gente ama.
	Exatamente.
Um pequeno silncio se fez entre os dois e foi Lucas a quebr-lo:
	No vou lhe fazer uma declarao de amor, Carla.
Portanto, pode relaxar. Se falasse em amor com voc, estaria mentindo.
	E quem pediu para voc falar de amor comigo?  ela perguntou, com raiva.
	S estou querendo deixar bem clara a nossa situao.
	Para mim ela est clarssima.
	Ser que est mesmo?
	No seja presunoso, Finn.
	Pode ficar tranquila. No existe nenhum tipo de presuno da minha parte. E tambm no vou me comportar como um cafajeste com voc.
	No entendi.
	No vou lhe falar de amor, no vou iludi-la, apenas para ir para a cama com voc.  Ele sorriu.  E, por falar em cama, vou dormir no cho. A, evitaremos qualquer tipo de aborrecimento.
	Se quiser, eu durmo no cho  ela props.
	No,  voc quem vem sendo submetida a um estresse maior e precisa de mais descanso. Portanto, eu durmo no cho e voc na cama.
	Bem, eu...  Carla no sabia o que dizer.
	Se eu no estiver de p logo pela manh, por favor, me acorde. Preciso me contatar com a polcia e ver o que est acontecendo.
	Certo.
Carla foi para o banheiro e quando voltou, encontrou Finn estendido no cho dormindo profundamente.
"Meu Deus, como ele deve estar cansado!" Ela sentou-se na beirada da cama e ficou olhando Finn dormir. "Com toda certeza ele est bem mais estressado que eu. E no  justo que durma nesse-cho."
Seguindo um impulso, Carla se abaixou e disse baixinho:
	Venha, Lucas, venha dormir na cama.
Ele resmungou um pouco e Carla insistiu para que ele se deitasse na cama. Totalmente grogue de sono, Finn se levantou e se deitou na cama.
"Assim est muito melhor. No era justo que Finn continuasse dormindo no cho duro."
Carla, ento, abriu o guarda-roupa e pegou uma colcha. Depois de estend-la no cho, deitou-se.
"Sou eu quem tenho de dormir no cho!"
Mas a deciso de Carla no durou muito tempo. Quinze minutos mais tarde, j estava pensando em tambm ir para a cama.
"Do jeito que Finn est dormindo pesado, no vai acordar." Ela tentou se acomodar no cho duro e se perguntou: "Mas ser que no vai mesmo?"
Depois de ficar ponderando sobre a ltima pergunta que se fizera, Carla resolveu fazer o que seu corpo pedia.
"Com uma cama to grande  besteira de minha parte ficar deitada no cho. Se Deus quiser, Finn no vai acordar."
Com muito cuidado, ela se deitou de lado na beirada da cama, o mais longe possvel de Finn. Mas logo aquela posio tambm ficou bastante incmoda. 
Ainda com muito cuidado, acomodou-se de costas e fechou os olhos.
"No, no estou correndo risco nenhum. E, alm do mais, ele me prometeu que no seria cafajeste comigo. Mas ser que d para confiar num desconhecido? O melhor que tenho a fazer  voltar para onde eu estava." Mas a perspectiva de uma noite inteirinha no cho duro, a impedia de se mexer. Por fim, apesar do peso de conscincia que sentia, Carla acabou adormecendo.
Ao acordar, notou, pelo canto dos pssaros, que j havia amanhecido.
Com carinho, ela ficou olhando para Finn.
"Tenho a impresso que ele nem se mexeu a noite toda. Bem,  melhor eu acord-lo"
	Finn  ela chamou baixinho.
E no precisou cham-lo outra vez. Ele abriu os olhos e, sorrindo, a cumprimentou:
	Muito bom dia, Carla.
	Bom dia.
	Mas essa  uma maneira maravilhosa de ser acordado. Sua voz  muito suave.
	Eu...
S ento ele pareceu notar onde estava.
	Como foi que vim parar aqui?
	Eu...  ela titubeou.
	Voc me ergueu nos braos e me trouxe at aqui? Isso, sim,  que  mulher forte. Preciso tomar muito cuidado com voc.
	No seja bobo, Finn.
	 verdade. J pensou se, de repente, decide me atacar?
	Quer fazer o favor de parar com isso?
Ele fez que no ouviu e continuou a provoc-la:
	E, enquanto estava dormindo, voc abusou de mim?
	No seja ridculo Finn Cormac!
	Tem certeza que no tivemos uma noite de paixo? Sou o tipo de pessoa que vive esquecendo o que aconteceu.
	Olha, no sei se est ou no brincando comigo, mas saiba que nada aconteceu entre ns dois.
	Que pena...  Ele se fingiu chateado.  Mas  uma grande pena mesmo.
Sem graa, mas ao mesmo tempo sentindo uma imensa atrao por Finn, ela o fitou intensamente.
	Posso saber o que se passa nessa sua linda cabea, Carla?
	Eu...  Seguindo um impulso do corao, Carla se aproximou de Finn e o beijou de leve na boca. Depois, se afastou.
	Que beijo mais gostoso.
	Me desculpe.
	Desculp-la porque me beijou? Nem pense numa coisa dessa.
	Eu... eu nunca estive com um homem antes.
	Est querendo me dizer que  virgem?  Ele agora no brincava.
	E... Eu sou virgem.
	Eu tinha desconfiado.  Ele fez meno de se levantar.
	Eu ofendi voc, no ofendi?
	De maneira alguma.  Finn voltou a se deitar e colocou as mos sob a cabea.
	Ento, por que voc no me beijou?
	Porque eu lhe prometi que no iria toc-la.
	Voc no retribuiu o meu beijo porque sabia que eu era virgem.
	Bem, digamos que isso seja parte da verdade.
	Isso faz muita diferena para voc?  Carla insistiu.
	Digamos que sim.  Ele riu.
	No ria de mim. No estou achando graa nenhuma.
	Carla, no quero que nada acontea entre a gente. Quando fizer amor pela primeira vez, ter que ser com um homem que signifique muito para voc. Um homem que esteja disposto a passar o resto da vida ao seu lado.
	Estou vendo que isso agora  muito relativo.
	No entendi aonde est querendo chegar.  Ele a fitou com curiosidade.
	Eu ia fazer amor com o Lucas e agora no posso sequer me imaginar passando um minuto ao lado dele.
	Isso significa que est querendo fazer amor comigo?
Aquela pergunta, feita de maneira to direta, a pegou totalmente desprevenida. E Carla no sabia o que responder.
	Eu lhe fiz uma pergunta, mocinha.
	Eu ouvi.
	E no vai me responder?
	Estou me sentindo muito confusa, Finn. At o dia que eu fugi tudo me parecia muito simples. E agora... Acho que nesses dias aconteceu muito coisa na minha vida. No  nada fcil fugir do homem com quem eu estava para me casar.
	Isso significa que voc est arrependida?
	De jeito nenhum. S no sei direito o que quero da minha vida.
Finn a fitou com muita ateno e Carla teve a sensao que ele iria lhe dizer vrias coisas. Porm, Finn nada disse.
	O que foi que aconteceu?
	Voc no sabe nada sobre a minha vida.  Ele deu um profundo suspiro.  E sou o tipo de homem que as mulheres no apreciam muito.
	Daria para me explicar essa histria direito?
	Bem, acho que em algumas coisas sou bem pior que o Lucas.
	Pior que o Lucas? Isso  impossvel.
	Talvez eu seja um pouco mais polido que ele.
	No, voc dois so bem diferentes. Sobre isso eu no tenho a menor dvida.
	Mesmo assim pode ter certeza: no sou o tipo de homem que a faria feliz. E sabe por qu?  Ele mesmo respondeu a pergunta:  Porque no quero saber de compromisso com ningum. No quero feri-la, Carla.
	Mas voc disse que se sentia atrado por mim.
	E  verdade. S que resolvi que jamais vai existir nada entre ns.
Quando resolveu isso? Quando estava dormindo?
Carla resolveu parar com aquele assunto. Estava se sen tindo muito, muito estranha.
"Por que resolvi ter esse tipo de conversa com o Finn? Acho que meu estresse me deixou totalmente maluca. Do jeito que comecei a agir, parece que estou me oferecendo a ele. E no  nada disso." Ela mordeu o lbio inferior. "Mas se no  nada disso, o que  ento?"
Carla continuou pensando e no se sentia capaz de entender a confuso em que se encontravam os seus sentimentos. A nica coisa que ela sabia era que precisava parar com aquele tipo de conversa.
	S amei uma mulher na vida. E eu a machuquei muito 	ele disse, baixinho.
Aquele comentrio interrompeu os pensamentos de Carla.
	Depois disso  ele continuou , nunca mais fui capaz de amar uma outra mulher.  Depois dela, s tive na minha vida casos passageiros.
	Por qu? Ser que o seu medo  to grande assim? 	ela perguntou de chofre, mas logo se arrependeu:  Me desculpe, deveria ter me mantido calada.
	Concordo com voc.  Ele se sentou na cama.  Vou tomar um banho.
	Por favor, Finn. Espere.
- Esperar o qu?  Ele virou-se para encar-la.
	Como... como era o nome dessa mulher?
Finn se manteve calado por alguns segundos, e finalmente respondeu:
	Louise. O nome dela era Louise.
	E onde est ela agora?
	Eu a matei.
	Voc o qu?  Carla sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo.
	Eu a matei  Finn repetiu.
	Meu Deus...  Carla engoliu em seco.  Da mesma maneira que voc diz que o Lucas faz com as pessoas?
	No. Fui bem mais cruel do que o Lucas Finzi.  Finn balanou a cabea em negativa.  Nunca vou me perdoar. Eu era muito jovem. Jovem e estpido o suficiente para no entender o que estava acontecendo. A, ela se suicidou.
	O que aconteceu?  Carla perguntou, com um certo alvio.
	No quero falar sobre esse assunto.
	Voc tem um comportamento muito estranho, Finn Cormac.
	Por que est me dizendo isso agora?
	Porque  a mais pura verdade. Brincar voc sabe, mas quando o assunto se torna srio  incapaz de manter uma conversa. Se o assunto se torna srio, faz questo de se proteger com um muro bem alto onde no  permitida a entrada de ningum.
	Por favor, Carla, no insista. No quero falar sobre esse assunto. Eu sou um grande risco, sabia?
	No me importo. Estou comeando a aprender a correr riscos.
	... Voc est comeando a aprender a correr riscos 	ele concordou.
	O que est acontecendo no  justo, Finn.  Carla foi sentar-se ao lado dele.
	O que no  justo?
	Voc sabe tudo sobre mim e eu no sei absolutamente nada a seu respeito.
	E o que est querendo saber?
	Muitas coisas.
	Pergunte, ento. S no posso lhe prometer que vou responder s perguntas. O que est querendo saber sobre mim? Meu endereo? Bem, eu moro em Nova York. Quer saber a data do meu aniversrio?  dia vinte e um de junho. J sei: tambm quer saber o nmero do meu telefone.
	No  nada disso. No aja como se estivesse respondendo a um questionrio.
	E como quer que eu aja?
	As pessoas, quando esto se conhecendo, falam sobre si, sabia?
	Mas  claro que eu sabia. Acontece que no quero me fazer conhecer.
	Voc, quando se trata de emoes verdadeiras,  muito medroso. S estou querendo conhec-lo.
	Acho que est totalmente equivocada, srta. Gambini. No  bem me conhecer o que est querendo.
	Mas  claro que estou querendo conhec-lo.
	No, voc est tentando me seduzir.
Ela riu, mas sabia que, de certa maneira, Finn estava certo.
Sabe o que realmente voc est querendo, Carla? Isto! 	Finn a beijou com muita sensualidade. Em seguida, ele se afastou.
Voc disse que se sente atrado por mim. Mas, no fundo, voc me despreza. E acho que tem toda razo: sou uma mulher sem a menor vivncia e...
	Pare de sentir pena de si mesma. Por um tipo como eu, no vale a pena.
	No sou capaz de entender...
	Carla, pare com isso  ele a interrompeu.  A sua atitude no vai lev-la a lugar nenhum. Definitivamente, entenda uma coisa: voc , sim, a mulher mais linda, a mulher mais desejvel que encontrei em toda a minha vida. Eu adoro beij-la. E adoraria fazer amor com voc. Mas isso no vai acontecer.
	E por que no vai?
	Por que eu no quero.
	Voc vem me provocando desde que nos conhecemos. Quando eu decido que...
	No, no continue  ele voltou a interromp-la.
	Mas eu quero continuar.
	Pois, ento, continue. Mas voc vai continuar falando sozinha. Eu vou sair daqui!
Ao contrrio do que Carla esperava, Finn no foi para o banheiro. Ele calou os sapatos, saiu do quarto e, depois de bater a porta, desceu a escada apressado.
"Meu Deus, o que foi que eu fiz? Eu acho que enlouqueci de verdade. Como? Como pude me comportar assim com o Finn? O que acabei de fazer foi imperdovel. Eu praticamente o estava forando a fazer amor comigo. E por qu? Por que logo eu, que sempre me mantive distante dos homens, me comportei de uma maneira to vulgar?"
Carla comeou a chorar e no demorou muito para entender o que acontecia com ela:
"Eu me apaixonei pelo Finn. Foi isso que aconteceu. Me apaixonei por um homem que, na verdade, no me quer, que faz questo de manter o corao trancado a sete chaves!"
Ela enxugou as lgrimas.
	Mas eu quero conhec-lo!
Num impulso, Carla pegou a maleta dele e a abriu.
	Sei que o que vou fazer  muito feio, mas preciso saber mais sobre o homem que amo!

CAPITULO VIII

Uma hora mais tarde, Carla colocou os papis de volta na maleta e, sem enxergar nada do que tinha diante de si, ficou olhando atravs da janela. Depois, com gestos totalmente automatizados foi para o banheiro, tomou um banho, enxugou os cabelos e vestiu-se. Sabia que precisava encontrar Finn. S ento iria poder saber toda a verdade.
Ainda atnita, Carla deixou o quarto e desceu a escada. Foi encontrar Finn na sala de jantar, com uma xcara de caf nas mos, numa atitude bastante ausente.
Carla, subitamente muito nervosa, parou ao lado da mesa e ficou olhando para ele.
"O que vou fazer se Finn resolver me mandar para o inferno?"
Ele finalmente a fitou. Carla, ento, sentou-se.
Os dois ficaram em silncio.
	Se fosse um cavalheiro, pediria desculpa pelo meu comportamento l no quarto. No agi de uma maneira civilizada. Mas, na verdade, no sou um cavalheiro.
	Concordo com o que disse: voc no  um cavalheiro.
	Essa  uma das caractersticas que gosto em voc: est sempre disposta a dizer a verdade.
	Uma caracterstica que voc no tem  ela aproveitou para dizer.
	O que est querendo dizer com isso?
	Voc sabe o que estou querendo dizer.
	No, eu no sei sobre o qu est falando, Carla.
	Sabe, sim. Claro que sabe!
Ele balanou a cabea devagar em negativa e disse:
	No, eu no sei.
	Parece que existe algum segredo sobre o meu nascimento.  Carla, tentando manter a calma, foi direto ao assunto.  Vi isso nos papis que esto na sua maleta. E parece que existe um certo mistrio a respeito dos meus pais. Parece que eles no eram os meus pais verdadeiros.
Finn no disse nada. 
	Foi por isso que resolveu ir ao meu casamento, no foi? Estava querendo saber alguma coisa para publicar nos jornal ou no livro que est escrevendo.
	No  ele negou.  E voc no tinha nada que abrir a maleta e ficar mexendo nos meus papis. E muito feio ficar fuando nas coisas dos outros? Aquilo tudo  um as sunto privado, muito particular.
	E a minha vida? Ser que no  privada? Ser que no pertence s a mim? Ser que est pretendendo fazer um grande escndalo? Ser que est pretendendo acabar comigo atravs da imprensa?
	Aqueles papis nada tm a ver com o jornal. E  s isso que vou lhe dizer. Portanto, pode desistir de me fazer perguntas.
	Voc  um homem muito estranho, Finn Cormac. Quem o v pensa que  uma pessoa feliz, de bem com o mundo. Mas, na verdade, estou diante de um homem misterioso, cheio de segredos. Na verdade, voc mais parece uma esfinge.
	E isso no  bom?
	S se for para voc. Por que no me disse nada sobre esse assunto antes? Poderia ter me contado tudo.
	De maneira nenhuma.
	Por qu? Por que nem chegou a tocar nesse assunto comigo?
Finn tomou um gole de caf e s depois respondeu:
	No sabia se podia ou no confiar em voc. De repente, poderia querer voltar correndo para os braos do seu noivinho. No sabia se aquela sua recusa em se casar com Lucas no passava de puro nervosismo. No sabia se realmente estava querendo fugir dele. Portanto, tinha que manter um certo distanciamento.
	Distanciamento...  Ela sorriu de maneira triste.  Foi por isso que me rejeitou? Para manter esse distanciamento e porque no confia em mim?
	No, no foi por causa disso.
	Ento, por que resolveu me rejeitar?
	Porque no confio em mim, Carla.
Ela ficou alguns segundos em silncio. Depois, deu um profundo suspiro e perguntou:
	O que sabe sobre os meus pais? Quero que me conte tudo.
	Vai ficar sabendo de tudo quando chegarmos na Inglaterra. E agora, por favor, no insista. No vou lhe dizer mais nada.
"Ser que naquele telefonema que ouvi l em Monte Cario, ele no estava falando com a polcia? Pode ser que no, mas Finn pode ter feito mais de um telefonema..."
	Voc est trabalhando para algum, no ?
	De uma certa maneira, sim.
	E no est disposto a no falar sobre o assunto.
	Exatamente.  muito perigoso.
	Perigoso para quem? Para as pessoas para quem est trabalhando?
	No quero falar sobre esse assunto, Carla.
	Mas eu quero. E tambm quero que pare de me encarar como um objeto.
	Eu nunca a encarei como um objeto, muito pelo contrrio. Mas gostaria de nunca t-la encontrado.
	Eu tambm. Minha vida era muito mais tranquila antes de encontr-lo, sr. Cormac.  Ela sentiu um certo prazer em mentir.
	Isso que estamos falando  uma grande besteira. Se no tivssemos nos conhecido, voc estaria casada com o Lucas.
	E quem disse que esse casamento no teria sido muito bom para mim?
	Bom? Bom para voc?  Ele riu com desdm.  Voc s pode ter enlouquecido. Nenhuma mulher no mundo, por pior que seja, merece se casar com um homem daquele.
	Na sua opinio.
	Bem, acho melhor voc tomar o seu caf da manh.
	No estou com fome. Estou, isto sim, querendo que me conte toda a verdade sobre a minha vida. Voc me deve isso.
	Eu no devo nada a voc.
	Eu quero a verdade, Finn!  ela disse num tom alterado de voz.
	Calma, muita calma!  ele pediu.  Voc vai ter que esperar. Eu j falei bem mais do que deveria.
	No, no quero esperar.
Carla, calada, ficou olhando fixamente para ele.
	Carla, tudo o que leu naqueles papis  basicamente o que eu sei  Finn, finalmente, disse.  E no fui eu quem escreveu aquilo tudo sobre voc. Aquilo no passa de levantamentos feitos por mim. Os rumores que existem sobre voc dizem que foi adotada quando ainda era beb. E pode ter certeza: nunca me passou pela cabea fazer um escndalo sobre esse assunto. Sou um jornalista srio.
Carla sentiu que naquele momento Finn no estava mentindo.
	Bem, acho que o julguei mal. Mas foi um choque muito grande descobrir que as pessoas que me criaram nada tm a ver comigo.
	Isso tudo no passa de especulao, Carla. Portanto, no sofra por antecipao.
	E voc faria questo de manter aqueles papis, caso achasse que tudo no passasse de especulao? No acredito nisso. No acredito mesmol
Finn no respondeu as observaes de Carla. Ela, ento, sorrindo com amargura, continuou:
	E pensar que o nico homem que poderia me esclarecer esta histria toda est bem longe daqui hospitalizado...
Finn, ainda calado, olhava para Carla. Mas no existia nenhum tipo de agresso naquele olhar.
	E a mulher que foi a sua bab?  ele perguntou, de repente.
	Sarah s foi cuidar de mim quando eu estava com oito meses. E, pelo que conheo do meu tio, para evitar um escndalo, no comentaria esse tipo de coisa com ningum.
	E voc, Carla? No consegue se lembrar das pessoas que povoaram a sua infncia? Ser que no se lembra dos seus pais verdadeiros?
	Como? Como eu poderia? Eu era muito novinha.
	E sua infncia foi normal?
	Foi, sim, normal. Foi uma infncia igualzinha  das outras crianas. Eu vivia atormentando todo mundo.
	Quer dizer que as crianas que pertencem s famlias da Mfia, tambm so umas pestinhas? 
	Voc no tem o direito de me falar coisas desse tipo  Carla disse com raiva.
	Me desculpe. S estava querendo brincar um pouco.
	Pois eu dispenso esse tipo de brincadeira.  Aflita, Carla passou as mos pela cabea.  Sempre me disseram que o meu pi era um homem muito bom. Ele era irmo do meu tio Pancrzio.
	Ser? Ser que o seu pai era mesmo irmo do seu tio?
	No sei. No sei de mais nada. E vim aqui conversar com voc, justamente para ver se esclarecia esses detalhes que, para mim, so muito nebulosos. Pelo que sei, meu pai tinha uma- fbrica de motos nos arredores de Turim.
	Uma fbrica de motos...
	. Ela no era grande, mas as motos que meu pai fabricava eram bem possantes. A...  Carla, emocionada, no conseguiu terminar a frase.
	O que foi que aconteceu?  Finn a incentivou a continuar falando.
	Bem, um dia ele saiu com a minha me para dar uma volta de moto e os dois sofreram um acidente.  Lgrimas escorriam pelo rosto de Carla.  Deve ter sido uma morte terrvel. Nunca quiseram me falar muito a respeito. Ser que no dava para voc me contar mais detalhes sobre tudo o que aconteceu?
	No  ele respondeu de maneira sria , eu no posso.
	A escolha foi sua.  Carla se levantou e, sem dizer mais uma s palavra, deu-lhe as costas e subiu a escada correndo.
No quarto, pegou as roupas que havia ganho de Finn e as colocou dentro de uma s sacola.
	Onde voc pensa que vai?  Finn perguntou, ao entrar no quarto.
	Um dia, se Deus quiser, eu lhe devolvo o dinheiro que gastou na compras dessas roupas. Agora vou precisar delas.
	O que est pretendendo fazer?
	No lhe parece bvio? Eu vou embora.
	Pare com isso!  Ele a segurou pelo pulso.
	Me solte! E eu vou embora, sim. Nada vai me impedir de seguir o meu destino! Voc no pode me ajudar.
	Mas  claro que posso.  Finn soltou-lhe o pulso e a segurou com delicadeza pelos ombros.  Existem muitas coisas que eu posso fazer por voc, Carla.
	No adianta falar comigo dessa maneira charmosa.
Estou indo embora. No quero ficar mais nem um segundo ao seu lado. Deveria ter acreditado no que me disse: voc , sim, pior que o Lucas. O tempo todo fingiu ser meu amigo para atingir fins bastante duvidosos.
	Me diga uma coisa, Carla: ser que realmente acredita que quero continuar escondendo coisas importantes de voc?
	J no sei majs o que pensar. A nica certeza que tenho  que voc no  quem diz ser e que existem coisas muito importantes sobre as quais voc se nega a falar comigo. Ser que  to errado assim querer saber o que so essas coisas? Eu acredito que no.
	Carla, entenda: no vai adiantar nada voc fugir.
	Eu no estou fugindo.
	No est? Se no est fugindo, o que est pretendendo fazer? E como vai arrumar dinheiro para fazer o que tem em mente? Vai andar de carona pela Europa?
	No. Vou usar o carro que est l fora.
	O qu?  ele perguntou espantado.
	Voc ouviu o que eu disse.
	Quer dizer, ento, que sou eu quem vai ter que andar de carona?
	Voc aluga um carro. Lucas no sabe quem  voc.  Portanto, no corre nenhum tipo de risco, sr. Cormac.
	No estou entendendo o seu raciocnio. Ele est bastante confuso.
	No importa. O importante  eu sair daqui. Lucas est atrs de mim, no de voc.
	Ser? Como pode ter tanta certeza disso? Pelo que sabemos, o seu noivinho tem contatos na polcia daqui. 
	Ele no  o meu noivinho! No gosto que se dirijam a mim com ironia.
	Tudo bem, me desculpe. Mas no acho uma boa ideia voc ir embora.
	Daqui para frente, sr. Cormac, estou por minha conta e risco.
	Ns temos que continuar juntos.
	Oua uma coisa. E s vou diz-la uma vez: eu no confio mais em voc!  Carla estava furiosa.
	Voc no confia mais em mim? Mas isso  um verdadeiro absurdo!  Pela primeira vez Carla o estava vendo fora de controle.
	Absurdo  o que est fazendo comigo.
	E o que eu estou fazendo com voc?
	Est me sonegando informaes muito importantes. Se no vai me contar o que sabe a meu respeito, vou procurar a nica pessoa que pode fazer isso: meu tio!
	Voc est maluca, moa. Maluca! Acha mesmo que vou deixar voc sair daqui? Acha?
	Vou sair daqui, sim, senhor. E vou procurar o meu tio.
	E colocar a sua vida em risco?  isso que voc quer?
	O que eu quero  ficar livre da agonia que estou sentindo. E, principalmente, ficar livre de voc!
	Voc s pode estar brincando.
	No costumo brincar com coisas srias.  Carla pegou a sacola, mas quando estava se dirigindo para a porta, Finn a segurou.
	J disse que no vai sair daqui. Ser que no me ouviu?
	Me solte!
	Eu solto, mas antes voc tem que me ouvir.
	Voc j me disse tudo o que queria. E nada do que me disse saciou a minha vontade de saber quem eu sou realmente. Portanto...
	Portanto, voc vai continuar aqui e vai me ouvir.  Ele a puxou e a fez sentar-se na cama.
	E assim que est acostumado a resolver as suas de savenas coma as mulheres? Usando a fora bruta?
	Carla, no vou ligar para as suas provocaes. Apenas por uma questo de sobrevivncia, ns temos que ficar juntos. Vou telefonar para a polcia e saber se eles j prenderam o Lucas.
	E voc acha que isso pode ter acontecido?
	Pode. Pode ter acontecido, sim. E, caso ele no tenha sido preso, acho melhor ns continuarmos aqui. Coloquei o carro num local que no pode ser avistado da estrada. Por tanto, estamos seguros. E quase certo que o Lucas no vai nos encontrar nessa hospedaria.
Carla deu um profundo suspiro e levou uma das mos  testa.
	O que aconteceu? No est se sentindo bem?
	Estou me sentindo muito cansada. Cansada de tudo, principalmente de voc.  Ela voltou a suspirar.  No gosto de ser usada. Tanto trabalho, tanto risco, s para conseguir uma boa histria. No acha isso uma grande loucura da sua parte? Se no fosse por causa dessa sua maldita
profisso, no estaria se importando comigo.
	Isso no  verdade. E voc sabe muito bem disso.
	Eu? Voc acha que posso saber alguma coisa? Nem sei quem realmente  voc.
	Confie um pouco em mim.
	E acha que isso  fcil?
	At agora eu consegui proteg-la, no consegui?
	Ser que conseguiu mesmo? Ser que no estou correndo um risco bem maior ficando ao seu lado? Voc pode no ser Finn Cormac. E, portanto, pode no ter escrito aque le maldito livro!
	Claro que sou Finn Cormac.
	Adoraria acreditar nisso, adoraria acreditar em voc. Mas, a cada segundo que passa, fica bem mais difcil. Voc mais parece um tmulo, no deixa escapar absolutamente nada do que no queira.
	Quase no falo a meu respeito. Normalmente sou eu quem fao as perguntas.
	Mas que espcie de homem voc  na realidade? No acha que me sentiria mais segura se soubesse um pouquinho mais a seu respeito?
Finn sentou-se ao lado dela na cama e segurou a cabea com as mos.
	E quanto a mim?  Carla continuou.  No acha que tenho direito de saber sobre o meu passado? No tenho direito de saber quem foram realmente os meus pais? E Loui-se? Quem foi ela realmente? Eu preciso muito, mas muito mesmo saber mais a seu respeito. Ser que no entende? Finn continuava com as mos na cabea.
	Meu pai era... Bem, meu pai  um grande industrial  ele finalmente disse, de maneira fria.  E Louise foi a nica mulher pela qual me apaixonei. Nasci em Boston e minha me era italiana. Ela adorava tudo que fosse irlands, inclusive meu pai. Meu nome completo  Finn Cormac Bruton. Mas, depois que sa de casa, optei apenas por Finn Cormac. Meu pai  um homem muito rico, mas tambm muito antiquado. Apesar das quatro irms que tenho, o velho Bruton decidiu que eu seria o legtimo herdeiro dele e, portanto, a pessoa indicada a dar continuidade aos seus negcios. Aos vinte e um anos, eu no passava de um grande irresponsvel, que tinha o mundo aos seus ps: carros, dinheiro e inmeras garotas me assediando.  Ele olhou para  teto e sorriu com amargura.  A, eu me apaixonei por
uma garonete: Louise. Ela no era uma mulher bonita, mas algo nela fez com que eu me apaixonasse perdidamente. Sempre me senti muito bem ao lado de Louise. A, um dia, a filha do scio do meu pai me procurou para me dizer que  estava grvida. E para me dizer tambm que eu era o pai da criana. No acreditei que aquilo fosse possvel pois, alm de ter sado com ela poucas vezes, ns tnhamos nos  prevenido contra uma possvel gravidez. No fim, para resumir a histria, acabei acreditando que era mesmo o pai da criana. Bem, a tudo se precipitou. Quando dei por mim, o meu pai e o pai da garota j estavam preparando o nosso casamento. Falei com o meu pai sobre Louise, mas ele no deu a menor importncia ao fato. Apenas me disse que eu tinha que assumir a criana que ia nascer. Acabei concordando com aquilo tudo e resolvi procurar Louise. Quando ficou sabendo o que estava acontecendo, teve uma crise ner
vosa e chorou muito. A, eu, muito imbecil, cometi o maior erro da minha vida: ofereci dinheiro a ela.
Finn fez uma pausa e parecia perdido em pensamentos. Depois, continuou:
	O casamento estava cada dia mais prximo. E eu comecei me sentir apavorado. Mas procurei me manter firme: afinal, tinha que honrar o nome da minha famlia. Bem, num belo dia, ouvi certos comentrios sobre a minha noiva. E esses comentrios estavam absolutamente certos: a garota no estava grvida e tudo no havia passado de uma grande armadilha.
	E o que voc fez?  Carla, curiosa, perguntou.
	A nica coisa que podia fazer: entrei no carro e corripara a casa de Louise. Queria me desculpar, e a queria de olta. Sabia que s ela poderia me fazer feliz. Estava disposto  me casar, sim, mas com Louise. Mas eu cheguei tarde.
	Continue, Finn. Por favor...  Carla pediu, baixinho.
	Louise algumas horas antes tinha morrido num hos pital. Ela, muito decepcionada, tomou uma dose letal de remdio. Mais tarde, fiquei sabendo que aquela histria de gavidez tinha sido sugerido a Jane, era esse o nome da garota com a qual eu quase me casei, pelos nossos pais. E a imbecil aceitou representar a farsa. A, quando nos casssemos ela iria me dizer que havia se enganado, que real mente no estava grvida.
	E quem lhe contou tudo isso?
	Meu pai. Na noite do dia em que Louise morreu. E quera me conhece um pouco melhor?
	Acho que sim... E tudo o que aconteceu conosco agora faz sentido.
	No entendi.
	Agora eu compreendo o motivo que o levou a agir daquela maneira na igreja. Tambm queriam que eu me casasse comm homem que nunca amei, apenas por interesses familiares. A, voc resolveu agir.

CAPITULO IX

Finn voltou a segurar a cabea com as mos.
 No foi por isso? No foi por isso que resolveu interferir no meu casamento? Afinal, voc tambm quase se casou obrigado.
	Talvez. Talvez o motivo tenha sido esse.
	Finn, no pode continuar se punindo do jeito que vem fazendo. Quando tudo aconteceu, voc era jovem e tentaram manipul-lo. Por favor, tente se perdoar.
	Se eu quisesse ser analisado, j teria procurado um especialista. Apesar de tudo o que aconteceu, posso muito bem continuar vivendo de maneira saudvel.
	Claro, se fechar, sofrer, carregar uma culpa imensa  uma maneira muito saudvel de continuar vivendo  ela comentou, com uma certa ironia.
	 a maneira que encontrei para sobreviver neste mundo onde s existem feras prontas a nos atacar. E tem mais um detalhe: quando Louise morreu, prometi que nunca mais me apaixonaria por outra pessoa.
	No pode continuar se torturando tanto, Finn.

	O que fao da minha vida, s a mim diz respeito.
Muitas mulheres j tentaram me prender e nenhuma delas conseguiu. E foram muitas, pode acreditar.
	O que foi, agora? Mudou de estratgia? Resolveu me dizer que  um grande conquistador?  Carla se sentiu agredida com as palavras de Finn e ficou com muita raiva.
	No, no  nada disso. S no quero que tenha iluso alguma a meu respeito. No vale a pena. No sou o homem indicado para faz-la feliz
	Mas voc impediu o meu casamento com Lucas.
	No foi exatamente isso o que aconteceu. Simplesmente estava no local exato e na hora exata. A gente nem se conhecia.
	Infelizmente, Finn, eu me envolvi emocionalmente com voc  ela se ouviu dizendo. E no sabia onde havia encontrado tanta coragem para admitir tal coisa.
	Eu sabia, eu sabia que isso tinha acontecido. Mas no se preocupe. Quando estiver estabelecida em Londres, em poucas semanas vai esquecer essa loucura toda que aconteceu conosco.
	Jamais vou esquecer o que aconteceu conosco.
	Vai, sim, no se preocupe. Voc  jovem e, para os jovens, tudo  passageiro.
	E mesmo? Voc era muito jovem quando resolveram mago-lo e, at hoje, vive preso ao passado.
	O meu caso foi diferente. Mas assim que se estabelecer em Londres vai conhecer pessoas novas e tudo ficar mais fcil.
	Ser que no ouviu o que eu lhe disse? Estou envolvida emocionalmente com voc, Finn. E so sentimentos muito fortes, sentimentos que nunca havia sentido antes. Eu... eu te amo...
	E quem  voc para falar em amor?  ele perguntou devagar.  O que voc sabe do amor? O que voc sabe da vida, Carla?
	Bem mais do que voc possa imaginar!  ela explodiu.
	Quer dizer, ento, que j se apaixonou outras vezes?
	J  ela, humilhada pela rejeio e pelas palavras de Finn, resolveu mentir.
	Mas voc tinha me dito que s tinha se relacionado com Lucas.
	Pois eu menti. No ano passado, por exemplo, me envolvi seriamente com um homem  Carla continuou indo em frente com a histria que comeava a inventar.
	Tem certeza?  Finn duvidou.
	Absoluta.
	Mas voc me disse que era virgem.
	Essa foi outra mentira que resolvi lhe contar. Pensou que eu tivesse vivido a minha vida toda cercada por uma redoma?
	Pensei, pensei, sim. No d para imaginar Lucas Finzi deixando algum homem se aproximar de voc. Alm do seu tio,  lgico.
	Pois se enganou, Lucas. Frequentei por um ano uma escola para moas na Sua.
	Uma escola? E o que fez nessa escola.
	Um curso de etiquetas e boas maneiras. Aprendi como receber as pessoas, como me comportar em pblico...
	E, l na Sua, voc seduziu uma dzia de esquiadores. Seduziu tambm o rapaz que foi consertar o relgio da escola.  Ele comeou a rir.
	Pare de zombar de mim. Isso tudo que lhe contei  verdade.
	Com toda certeza.  Finn continuou rindo.
	Bem, no vou lhe contar mais nada. Chega. Da minha boca no vai mais ouvir uma s palavra sobre o que aconteceu. Detesto que zombem de mim.
	No estou zombando de voc, Carla. Mas foi impossvel no rir do seu jeito.
	 mesmo?  Ela ergueu a cabea, num gesto de orgulho.
	Pode acreditar. Voc fala de coisas srias com uma simplicidade, uma ingenuidade, espantosa.
	Eu sou assim mesmo.
	Mas continue me falando sobre as suas conquistas.
	No quero mais falar sobre esse assunto.
	Por favor, Carla. Afinal, somos quase amigos. Como eram eles? Bonitos?
	Quem?
	Os homens que voc seduziu l na Sua.
	Todos eram bem mais bonitos e bem mais charmosos que voc. 
	E esse homem por quem se apaixonou? Tambm era bonito?
	Ele era fantstico. Parecia um gal de cinema. E ele era um amor de pessoa: simples, muito intelectualizado e nada arrogante.
	E sexualmente? Vocs se deram bem?
	Divinamente bem. Quer que eu lhe conte alguns detalhes?  Carla estava sentindo um grande prazer em mentir, em desafi-lo.
	No, de maneira alguma. Dispenso que me fale sobre os detalhes. Preferia que voc os mostrasse a mim.
	O que est pretendendo?  ela perguntou, com o corao aos saltos.
- Tenho certeza que uma mulher to experiente quanto voc, sabe exatamente o que estou pretendendo  Finn disse, num tom de voz bem insinuante.  Quem sabe no conseguimos reproduzir todas as emoes que viveu nos braos desse seu gal?
	Eu...  Ela engoliu em seco.
	No sei se conseguirei ser to especial, mas posso tentar. E prometo que vou fazer de tudo para que sinta emoes inesquecveis.
"Meu Deus, por que fui falar tanta mentira? E agora? O que fao? Sair correndo ficaria muito feio. Voltar atrs, eu no conseguiria. Eu... Eu estou perdida..."
	E ento? Vamos tentar reproduzir tudo o que de maravilhoso viveu nos braos do seu gal?
Vendo que Carla estava imvel, Finn caiu na gargalhada.
	Voc  uma grande impostora, Carla Gambini.
	De maneira alguma, tudo o que eu lhe falei  a mais pura verdade.
	Voc no sabe mentir. E desculpo esse monte de asneiras que acabou de me dizer. Sei que, com toda razo, est muito brava comigo.  Ele segurou-lhe uma das mos.
 Mas pode parar de mentir, Carla.
	Eu no estou mentindo.
	E como foi que encontrou esse gal?  ele perguntou de uma maneira cnica.
	No vero passado, fui visitar alguns parentes em Veneza. L eu tenho uma infinidade de primos. E foi por um deles que acabei me apaixonando.
	E Lucas? Onde estava o seu adorado noivinho? E o seu tio?
	Os dois tinham viajado a negcios. E no quero mais saber de perguntas.
	Mas eu quero saber o que aconteceu  ele insistiu.
	Bem, samos para jantar. Tomamos champanhe e passeamos por lugares incrveis. Na hora de ir embora para casa, entramos numa gndola e ele me beijou  luz do luar.
	E esse seu primo lhe disse o quanto voc  linda?
	Inmeras vezes.
	Mas voc tinha me dito que jamais algum havia lhe dito que voc era linda.
	Outra mentira que resolvi lhe contar. Por puro charme, Finn... Por puro charme.
	Sei...
	E est pretendendo encontrar com esse seu primo de novo?
	No sei, foi bom enquanto durou  ela disse e, em seguida, deu um profundo suspiro.
Finn mais uma vez, apesar do esforo, no conseguiu deixar de rir.
	Voc insiste em rir de mim, no ?
 No d para evitar, Carla. Voc  pssima mentindo. De repente, os dois ouviram muito barulho l fora.
	O que ser que est acontecendo?  Preocupado, Finn foi at a janela.
	E a?  ela quis saber.
	Parece que esto armando uma mesa bem grande.  Ele abriu a janela e falou com a dona da hospedaria. Depois, voltou a se sentar ao lado de Carla.
	O que ela lhe disse?
	Marie e o marido, Henri, resolveram fazer uma festa para comemorar o nosso casamento.
	O qu? Voc s pode estar brincando.
	No  brincadeira, Carla. Eles esto mesmo dispostos a festejar o nosso casamento.
	Mas no houve casamento algum.
	E eu no sei disso?  Ele deu de ombros.
	Precisamos fazer alguma coisa. Esse equvoco no pode continuar.
	E o que est pretendendo fazer?
 Descer e contar aos dois que no somos casados.
	E o que vai ganhar com isso?
	A minha tranquilidade, ora! Alm do mais, detesto qualquer tipo de mentira.
	 mesmo, Carla Gambini?  ele perguntou com muita ironia.
	Pode estar certo que sim  ela respondeu e ficou muito vermelha.
	Quem diria!
	Vou l embaixo, desfao todo o equvoco e depois peo um quarto s para mim.
	Em francs?
	No entendi.
	Voc vai at l falar com eles em francs?
	Bem, quase no sei nada de francs.  melhor descer comigo e me ajudar.
	No, tenho uma outra ideia.
	E qual  ela?
	Ns poderamos aceitar essa festa. Afinal, o que temos a perder?
	No. No quero participar desta farsa.
	Pense bem, Carla: se a gente aceitar a festa, vamos chamar menos ateno.
	Como assim?
	Marie e Henri esto achando que somos um casal em lua-de-mel. E espero que continuem pensando dessa maneira. Um casal em lua-de-mel deve ser muito comum nessa regio maravilhosa da Frana. Portanto, acho bom a gente comemorar o nosso casamento. Agindo assim, evitaremos problemas futuros. E o melhor de tudo: evitaremos especulaes a nosso respeito.
Carla pensou um pouco e viu que Finn estava com a razo.
	E ento?  ele quis saber.
	Tudo bem, vamos participar dessa festa como um casal em lua-de-mel.  Ela se levantou.
	Aonde voc vai?
	Vou falar com Marie. Quero ver se ela est precisandode ajuda.
Marie, que falava um pouco de ingls, ficou muito contente com o oferecimento de Carla. E antes que ela conseguisse entender direito o que estava acontecendo, a dona
da hospedaria pegou duas cadeiras e as levou para uma sombra sob uma rvore.
	Sente-se  Marie disse.
Carla, meio sem jeito por causa da euforia da mulher, sentou-se.
	Estou muito feliz minha, filha  a francesa disse num ingls bastante carregado.  Mas voc me parece muito triste. O que est acontecendo? Andou discutindo com o seu marido?
No sabendo o que responder, Carla se manteve em silncio.
	Me desculpe  Marie continuou , no devia estar metendo o nariz onde no fui chamada. Mas estou muito contente de, finalmente, ver o Finn casado.
"Quer dizer, ento, que eles se conhecem? Como no desconfiei disso antes? Eu sou mesmo uma grande ingnua!"
	S estou muito cansada. A gente tem viajado muito.
	Realmente  muito bom v-lo casado. Cheguei at a pensar que ele nunca fosse se casar. E ficar solteiro, para um homem como ele, no  nada bom. Voc no acha?
	Cia... Claro que sim.
	Ningum pode se manter distante das emoes. Faz parte do ser humano se emocionar. Mas, graas a Deus, voc apareceu para acabar com a solido do Finn.
	Pois ...  Carla estava se sentindo profundamente incomodada com aquela conversa. Mas teria que manter a farsa.
	Ontem, depois que vocs foram para o quarto eu disse ao meu marido Henri: Finalmente o Finn encontrou a moa que vai faz-lo feliz.  Marie deu um forte abrao em Carla. 
 Agora eu preciso ir. Tenho que preparar muitas coisas para a comemorao de hoje  noite. E voc no precisa se preocupar. Tudo o que tem a fazer  descansar.
Carla, ento, resolveu andar um pouco a p pela regio e fez questo de se manter bem longe da estrada. Ao voltar para casa, na hora do almoo, no encontrou com Finn.
"Onde ser que ele se meteu?", ela se perguntava j dentro do quarto, sem saber direito que atitude tomar. "Ser que resolveu fugir de mim, ou ser que est muito difcil para ele fazer o papel de marido feliz? Mas isso no me importa. Tenho que fazer de tudo, me esforar muito, para conseguir ficar com ele. Finn Cormac  o homem que eu amo. Sei que fui uma grande idiota lhe contando todas aquelas mentiras, mas foi muito mais forte do que eu. Quando dei por mim, estava mentindo desesperadamente." Ela deu um profundo suspiro. "Bem, a nica coisa que me resta a fazer  lutar para conquistar o homem que amo e sem o qual, tenho certeza absoluta, no conseguirei mais viver. Seja l onde ele tenha se metido,  noite, Finn vai acabar aparecendo. Mesmo que eu no consiga dormir agora, o melhor  eu descansar um pouco. A noite promete ser longa."
Carla deitou-se e, ao contrrio de suas expectativas, dormiu imediatamente. Duas horas depois, acordou muito bem-disposta e de excelente humor.
"Agora vou tomar um belo banho e ficar bem bonita para o homem que todos aqui acreditam ser meu marido."
Depois do banho, ela pegou um dos vestidos que Finn havia lhe comprado e foi procurar Marie.
	Voc est com uma cara tima, minha filha.
	Consegui dormir um pouco.
	Ainda bem.  Marie olhou para as mos de Carla.
 Est querendo dar uma passadinha no vestido?
	Se voc puder me emprestar o ferro...
	Com todo prazer. Mas, antes, vou lhe emprestar o meu secador. O seu cabelo est muito molhado.
	Isso seria muito bom.
Carla deixou o vestido sobre uma cadeira e foi secar os cabelos. Ao voltar, passou o vestido. Quando estava para voltar para o quarto, Marie disse:
	Gostaria de lhe fazer uma maquilagem. Voc permite?
	Mas  claro que sim.
	Ento, v at o seu quarto e pegue os seus sapatos. Ento poder se aprontar aqui embaixo mesmo.
	Certo.
No satisfeita em fazer-lhe a maquiagem, Marie tambm quis dar um jeito no cabelo de sua hspede. Ao se olhar no espelho, depois de maquiada e penteada, Carla quase no acreditou no que viu:
	Mas ficou fantstico! At pareo uma outra mulher.
	Voc  linda, minha filha. Tem um tipo de pele muito raro, um corpo perfeito. E a cor do seus cabelos, ento,  maravilhosa. Seus cabelos so ruivos, mas tm um tom meio aloirado. Nunca tinha visto cabelos como esses. Agora, ponha o vestido e calce os sapatos.
Sob o olhar de aprovao da francesa, Carla colocou o vestido e os sapatos.
	Meu Deus, voc mais parece uma manequim! O Finn realmente  um homem de muito bom gosto.
	Obrigada, Marie.
	H muito tempo eu no via uma mulher to linda. E olhe que ns, francesas, temos mulheres lindssimas por aqui.
	A maquiagem que voc me fez ficou perfeita.
	Eu adoro fazer maquiagem.
Carla agradeceu o trabalho realizado por Marie e foi para o quarto. Ao entrar, deu e cara com Finn deitado na cama.
	Onde foi que voc se meteu? Eu...  Finn interrompeu a frase e ficou olhando-a meio embasbacado.  Mas o que  isso?
	Isso o qu?  ela se fez de desentendida.
	Esse vestido? Onde voc arranjou esse vestido?
	Foi voc quem o comprou para mim.
	E esse cabelo? Voc tambm est maquiada!
	Resolvi me arrumar para a nossa festa de casamento.
	Mas ns no somos casados!
	O que importa? O importante  que hoje  dia de festa. E acho bom voc tambm ficar bem bonito. Os nossos convidados no vo gostar nada de v-lo assim com a barba por fazer.
	Voc s pode ter ficado maluca.
	Fiquei, sim. Maluca por voc.
	Voc no sabe o que est dizendo.
	No tem importncia. Agora, por favor, v tomar um banho e faa a barba.
	Mas eu...
	No me venha com desculpas  Carla o interrompeu.
 V logo se aprontar.
Meio desconsertado, Finn se levantou, pegou algumas roupas na sacola e foi para o banheiro. Quando ela voltou para o quarto, Carla lhe disse:
	Voc est lindo, meu amor.
	Eu no sou o seu amor.
	Mas  claro que . Cala jeans e camiseta polo amarela. Essa cor lhe cai muito bem.
	Obrigado.  Ele deu um profundo suspiro.
	O que foi?
Voc est levando muito a srio essa histria de casamento.
	E no  para levar?
	Bem, pensando melhor, at que estou gostando.  Finn se aproximou dela de maneira insinuante, mudando radicalmente de atitude.  Voc ficou fantstica com esse vestido, os cabelos, a maquilagem...
	Acho bom voc no se entusiasmar muito.
	Por qu? Afinal, somos casados.
	Finn Cormac! No ouse me tocar!
Ele deu uma sonora gargalhada.
	Vai entender as italianas! Uma hora voc se comporta como se fosse a maior sedutora do mundo. A, de repente, passa a agir como uma virgem assustada.
"Ele tem toda razo! Preciso arrumar uma boa desculpa para justificar esse meu comportamento!"
	No quero estragar o meu cabelo, nem a minha maquiagem. Tambm no quero amarrotar o meu vestido.
	Mas a noite  muito longa, Carla Gambini.
	Voc ficaria muito melhor usando um terno.  Apavorada, ela falou a primeira coisa que lhe veio  cabea.
	Mas voc acabou de falar que estou bem nesta roupa.
	E verdade, mas com um terno ficaria muito melhor.
	No tenho nenhum terno comigo. No sabia que ia comemorar o meu casamento. Mas  noite, quando formos dormir, tenho certeza que no vou precisar de um terno.
	Se est pensando que vou...
	No estou pensando nada, minha doce italianinha mentirosa, no estou pensando nada.  Com um sorriso nos lbios, Finn saiu do quarto.
"Acho que fui longe demais. Mas longe demais mesmo!" Carla andava de um lado para o outro. "E agora estou morrendo de medo. Pelo que pude perceber, Finn mudou de ideia e resolveu fazer amor comigo. E vai ser essa noite. E eu... Eu no passo de uma garota muito confusa. Numa hora, praticamente me ofereo a ele. E agora... Meu Deus, que medo! Eu sei que o amo, mas no queria ser apenas uma aventura para o Finn. Eu queria me casar com ele de verdade, ter filhos, uma linda casa... A casa poderia ser em qualquer parte do mundo. Mas eu no suportaria fazer amor com ele para depois ser abandonada. Me guardei durante tanto tempo... No sei o que vou fazer. Estou me sentindo como um rato prestes a ser apanhado por uma ratoeira. Finn entrou no quarto e disse:
	Os convidados j chegaram. Esto todos loucos para conhecer a noiva.
	Eu no sou sua noiva.
	Mas  claro que .  Finn se aproximou e beijou-lhe os lbios de leve.  Uma linda noivinha italiana.
O jantar oferecido por Marie e por Henri estava muito animado. Os convidados no cansavam de elogiar a beleza e a harmonia do casal.
	Eu adoro msica francesa  Finn disse para Carla, em um dado momento.
	Eu tambm.
	Que tal, ento, a gente danar um pouco?
	Acho melhor a gente continuar aqui conversando com os convidados.
	Nada disso.  Ele se levantou e a puxou pela mo.  Venha, vamos danar.
Trmula, Carla se deixou abraar por Finn.
	Gosto muito do som do acordeom. Quando usado para executar msica francesa,  de uma melancolia incrvel, no acha?
	Acho, sim.
	Voc est tremendo, Carla.
	E voc queria o qu? Acha que  fcil ficar representando a noite toda algo que no sou?
	Relaxe, o mudo no vai acabar s porque estamos pregando uma mentirinha nessa gente.
	Mas eu j lhe disse que detesto mentiras.
Eu pude ver mesmo que voc detesta mentiras  ele comentou e deu um sorrisinho maroto.
	Por favor, Finn, no me provoque. No estou me sentindo muito bem.
	O que voc est sentindo?
	Estou muito tensa.
	Mas at h pouco,  mesa, voc me parecia muito bem.
	S que agora estou danando com o homem que eu amo. E ele, infelizmente, no me ama.
	Voc insiste com essa histria de amor, Carla. Por qu?
	Porque te amo de verdade. E se quiser rir de mim, sinta-se  vontade. O que sinto  verdadeiro. E a coisa mais bonita que aconteceu em toda a minha vida.
	E incrvel!
	O que  incrvel?
	Vocs mulheres so muito romnticas.
	E voc  o qu? H anos est preso a uma imagem de mulher e, pelo que entendi, jamais vai se desfazer dela. E eu... Eu no posso concorrer com uma pessoa que est morta.
	No fale dessa maneira.
	De que maneira voc quer que eu fale?  Carla deu um profundo suspiro.  Acho bom voltarmos para a mesa. No quero comear a chorar diante de todo mundo.
Sem argumentar, Finn a levou de volta  mesa. Mas a tristeza que invadira o peito de Carla, depois de ter danado com Finn comeou a ficar insuportvel. Por mais que se esforasse, estava se tornando impossvel conversar, sorrir, fingir que era a mulher mais feliz do mundo.
Carla se levantou.
	Aonde voc vai?  Finn quis saber.
	Andar um pouco. Estou precisando pensar e para isso preciso ficar sozinha.
Mas ficar sozinha tambm no estava adiantando nada. Carla olhou para o cu e ao ver a lua e as estrelas brilhando plcidas, teve muita vontade de gritar todo o seu desespero.
Carla, caminhando lentamente, comeou a voltar para o lugar em que a mesa tinha sido posta. De repente, quando j estava bem prxima  mesa, viu Finn se aproximando na companhia de um homem.
	No  possvel!  ela disse entre os dentes.  No  possvel! Lucas nos encontrou! E agora, o que vou fazer?

CAPITULO X

Sem ao, sem ter a mnima noo do que 'fazer, Carla parou e ficou olhando Finn e Lucas se aproximarem.
"Como  que pude pensar em me casar com ele? Lucas, apesar de conhec-lo h muito tempo, no passa de um estranho para mim."
Os convidados, percebendo que algo estava errado, pararam de conversar. Os msicos tambm interromperam a melodia que executavam.
	Voc  Lucas se dirigia a Finn  vai inventar para essas pessoas uma histria bastante verossmil para que eu os leve daqui. E no tente me enganar. Sei falar francs muito bem. Se desconfiarem de algo e resolverem chamar polcia, mato vocs dois.
Finn, mantendo toda a calma do mundo e dando a impresso que estava conversando com um velho amigo, disse:
	Invente voc uma boa desculpa para eles. No sou seu empregado.
Carla, apavorada, achou que o ex-noivo fosse ter uma reao explosiva. Mas, ao contrrio do esperado, ele sorriu de maneira educada e disse, em francs:
	Venham comigo.
Andando devagar, como se nada estivesse acontecendo, os dois se viram obrigado a seguir o mafioso. Quando j se encontravam a uma boa distncia da mesa, Finn pediu:
	Deixe a Carla aqui. Eu vou com voc.
	Quero vocs dois.
	Quero que saiba uma coisa: esta casa est cercada de policiais prontos para entrarem em ao. Acho melhor deix-la aqui e me levar como refm.
	No, Finn, nem pense numa coisa dessa.  Carla estava desesperada.
	Essa mulher foi prometida a mim.  O italiano no estava para brincadeiras.  E eu a farei honrar essa promessa.
	Carla no significa nada para voc. Portanto, leve-me como refm e deixe-a aqui. Se fizer isso estar vingado, pelo livro e por eu t-la roubado do altar. O que vai ganhar se casando com ela agora? Especialmente agora que Pancrzio Gambini est morto?
Carla ia dizer algo, mas ao olhar para Finn percebeu que deveria ficar quieta e guardar dentro do peito a dor que sentia pela perda do tio.
	No minta para mim, Cormac  Lucas disse.
	No estou mentindo.
	Voc a ama, no ama?
	Amo. Amo, sim. E se fizer algum mal  Carla eu juro que o mato!
	Voc no est em posio de me ameaar, sabia?  Lucas deu um sorriso aterrador.  Mas, ela fica. Agora que o tio dela morreu, essa mulher no me serve mais para nada. Mariella...
	Quer dizer, ento, que vai se casar com a sua amante? 	Carla resolveu interromp-lo.
	Isso no  da sua conta  Lucas respondeu, cheio de raiva.
	Por que voc no vai embora e nos deixa em paz?
	E a minha paz? Quero vingana. E a minha vingana vai acontecer l na nossa cidade, Carla Gambini, diante de todos.
	Mas eu estou livre, voc disse que no preciso acompanh-lo. Que tipo de vingana est pretendendo executar?
	Isso  problema meu.
- Voc  odioso.
	Sou mesmo?  Ele sorriu de maneira ameaadora. 	Mas saiba, Carla Gambini, que quanto a voc me sinto completamente vingado. No tem dinheiro, nem casa, nem amigos. E saber disso me faz sentir um imenso, um grande prazer. E o prazer maior  saber que nunca vai ficar sabendo que fiz com o Cormac.  Lucas olhou para Finn e ordenou: Vamos!
	Voc no pode lev-lo.  Completamente fora de si, Carla agarrou o brao de Finn.- Por favor, deixe-o aqui comigo. Esquea o que aconteceu conosco l na Itlia.
	De jeito nenhum. Vou lev-lo comigo.
Como ltimo recurso, ela props:
	Lucas, vamos fazer o seguinte: voc deixa o Finn aqui e eu o acompanho at a Itlia. L chegando a gente se casa.
	No quero mais me casar com voc. Saia daqui!
	No! Quero ir embora com voc, Lucas.
O italiano a fitou de alto a baixo e disse:
	Pensando melhor, voc nunca esteve to... bonita, Carla Gambini. Os ares franceses lhe fizeram muito bem. Quer dizer, ento, que est disposta a se casar comigo...
	Fao tudo o que quiser, desde que deixe Cormac em paz.
O mafioso voltou a fit-la de alto a baixo.
	E ento?  Carla perguntou, ansiosa.  Vai me levar no lugar dele?
	Chega de conversa! Voc fica e o Cormac vai comigo.
	Nada disso. O Finn no vai sair daqui.
	Carla, fora daqui. Fora daqui, antes que eu perca a pacincia. Se continuar me irritando vai acabar se ferindo.
	Quer me matar?  Ela desafiou ou ex-noivo.  Pois faa isso!
	No me provoque, mulher!
Carla olhou para Finn e disse:
	Voc nem imagina como me sinto mal por t-lo metido nesta confuso toda.  Depois, olhando par o ex-noivo, continuou:  Eu nunca pretendi mago-lo, Lucas.
	E mesmo?  O italiano riu.  No pretendeu me magoar e me deixa no altar, na frente de todos, como um palhao.
	Eu me sentia completamente oprimida, subjugada por voc.
Deveria ter me dito isso antes e no deixar para a ltima hora e me fazer passar por um vexame como aquele  Lucas agora, mais parecendo um garoto frustrado, externava toda a dor que havia sentido pelo abandono sofrido.
	Por favor, Lucas, em nome da nossa velha amizade, deixe o Finn livre. Ele entrou nessa histria toda apenas por dinheiro.
	Mas esse homem escreveu um livro acabando comigo.
	Esquea o livro, Lucas. Vamos voltar para a Itlia e nos casar. Me arrependo, do fundo do corao, do vexame que o fiz passar. Mas eu estava muito revoltada. No me conformava em saber que sua amante se encontrava dentro da igreja. A, fiz o que fiz.
	Mas esse homem disse que a ama.
	Foi pura provocao da parte dele. No tenho o menor significado para esse homem.
	No, Carla, eu no quero mais voc na minha vida. E agora, chega de conversa.
Carla deu um profundo suspiro e resolveu tentar mais uma vez:
	Como pode ter se ofendido tanto com a minha atitude, hem?  Ela agora falava num tom de voz bastante autoritrio.  Voc nunca me amou. S ia se casar comigo para alicerar a relao que existia entre voc e o meu tio. E, alm do mais, voc tinha uma amante. Eu no passava de mais uma de suas propriedades!
	E isso a! Como acabou de dizer, eu tinha uma amante e voc era propriedade minha sim\
	Voc  um grande machista!
	Fui, sou e sempre serei um grande machista. E me orgulho muito disso. Agora, suma da minha frente. Suma ou vou acabar atirando em vocs dois aqui mesmo, sem me importar com as consequncias.
	Voc no ousaria fazer isso!
	Pode acreditar que ousaria fazer isso e muito mais, Carla! Portanto, no me provoque.
	Como pode me tratar de uma maneira to rude? Meu tio sempre o tratou como a um filho.
	E era exatamente o que o velho Pancrzio tinha que fazer. Afinal, ia me casar com a filha dele.
	O qu?  O espanto fez com que Carla levasse as mos ao rosto.
	No venha me dizer que no sabia disso  Lucas comentou de maneira irnica.
	Mas  claro que eu no sabia.
	Bem, agora isso no tem a menor importncia. Ele est morto e voc jamais vai pr os ps de novo na nossa cidade. Se ousar fazer isso, nem vai ter tempo para se arrepender. A, minha vingana estar terminada.
Finn, que resolvera se manter em silncio, s estava esperando uma oportunidade para entrar em ao. Mas a oportunidade parecia que jamais iria surgir. Numa tentativa de distrair o mafioso, Finn disse:
	Pronto. Os homens esto a!
	Homens?  Lucas virou-se e olhou para trs.
A chance havia chegado. Usando os ps, num golpe certeiro de carat, Finn acertou Lucas em cheio no rosto. O italiano caiu desmaiado. Em seguida, Finn abraou Carla e perguntou:
	Voc est bem?
	Estou sim. E voc?
	Agora estou me sentindo profundamente aliviado.  Finn olhou para Lucas que continuava estirado no cho. Mas o nosso amigo, a, parece que apagou.
	Voc  muito bom mesmo em carat.
	Eu me esforo.  Finn deu um sorriso.  Mas o importante  que voc nada sofreu.
	E voc estava preocupado comigo?
	Preocupado? Eu estava apavorado. Se algo lhe acontecesse, jamais iria me perdoar. Eu te amo, Carla Gambini.
Te amo de todo o meu corao!
Lucas Finzi estava preso sob a guarda da polcia francesa. O golpe que Finn lhe acertara fora to violento que o mafioso s tinha acordado na delegacia.
A festa do suposto casamento tinha ido at s duas horas da manh. Para explicar o que acontecera, Finn havia dito aos convidados parte da verdade: contara que Lucas era um ex-noivo muito enciumado que tinha tentado lavar a prpria honra. Tal explicao fez com que todos se solidarizassem com os dois e tudo voltou a ser alegria.
No quarto que ocupavam na hospedaria, Carla estava junto  janela e olhava a noite.
	Sei que voc est muito triste  Finn, que se encontrava sentado na cama, comentou.
	Estou. Estou, sim, muito triste. E no  para menos. Gostava muito do meu tio. Estou sentindo um vazio imenso dentro do peito. E nada que eu fizer vai mudar o que estou sentindo. E triste demais perder algum a quem se ama.
	Carla virou-se para Finn.  Por que est me olhando com essa cara? Ser que est me escondendo algo que eu ainda no sei?
	Menti sobre o seu tio.
	Voc o qu?
	Menti sobre o seu tio  ele repetiu.
	Quer dizer, ento, que o meu tio est vivo?
	Est.
	E s agora voc vem me dizer isso, Finn?
	Me desculpe. Disse ao Lucas que seu tio tinha morrido apenas para forar uma situao. Depois, fiquei preocupado com outras coisas e...  ele interrompeu a frase.
	E ele est bem?
	No se preocupe, tudo o que lhe falei sobre a doena dele era verdade.
	E sobre aquela outra coisa? Tambm  verdade?
	Est se referindo ao amor que sinto por voc?
	No.  Carla sorriu e balanou a cabea em negativa.	Estou querendo saber se o meu tio, na realidade  meu pai.
	 verdade, sim.
	E a minha me?
	Acho que voc sabe a resposta dessa pergunta.
	Sarah?  Carla abriu um sorriso de felicidade. Sarah  minha me?
	Exatamente: Sarah  sua me.
	Mas que notcia maravilhosa!
	Eu a conheci quando estava fazendo as pesquisas para escrever o livro sobre o Lucas. A, quando soube que voc ia se casar com ele, Sarah me ligou apavorada e pediu que eu desse uma chegadinha at a sua cidade para ver se voc estava precisando de alguma coisa.
	Mas voc correu um risco muito grande.
	Foi um risco calculado.
	Por que no me disse antes que ela era a minha me?
	Eu no podia. Sarah me disse que ela mesma, um dia, queria contar toda a verdade a voc.
	Ento, por que agora resolveu me contar a verdade?
Finn se levantou e a abraou com carinho.
	Porque eu no queria v-la continuar sofrendo tanto.
	E como Sarah conheceu meu tio?
	Pelo o que ela me contou, isso aconteceu quando Sarah foi passar umas frias na Itlia. Os dois tiveram um romance fulminante e Pancrzio prometeu que os dois iam se casar. Mas algo deu errado e ele acabou se casando com outra mulher.
	Ele sabia que a Sarah estava grvida?
	No, ela s se comunicou com Pancrzio depois que voc nasceu. A, seu tio... Me desculpe, seu pai, deu um jeito e o irmo dele e a esposa resolveram cri-la.
	E eles logo morreram.
	Pois ... Ento, seu pai a levou para a casa dele e entrou em contato com Sarah. Ela que sempre a amou e que tinha entregue voc ao irmo de Pancrzio por estar vivendo na poca uma grande dificuldade financeira, resolveu ir morar na casa de Pancrzio para poder cri-la.
	Deve ter sido muito difcil para Sarah.
Foi, sim, muito difcil. Afinal, sua tia ainda estava viva. Mas Sarah me contou que, depois que ps os ps na casa do seu pai, nunca mais teve absolutamente nada com ele. Sarah  uma mulher de princpios muito rgidos. Ela s queria mesmo estar ao seu lado, Carla. A, quando a sua tia faleceu, seu pai pediu  Sarah que se casasse com ele. Sarah, por orgulho, recusou. Na verdade, ela nunca perdoou seu tio por ter se casado com outra mulher. E tem mais uma coisa que fiquei sabendo hoje: seu pai, quando soube que Lucas saiu da igreja feito um doido para procur-la, entrou em contato com a polcia e resolveu colaborar com eles.
	Ele? Ele fez isso?
	Fez. Parece que Pancrzio vai ter que resolver alguns problemas com a justia. Mas esses so detalhes sobre os quais no sei nada a respeito. Pelo jeito, seu pai a adora, Carla.
	Meu Deus, como a vida  complicada.
	Bem mais do que voc possa imaginar, minha doce italianinha.
	No sou mais a italianinha mentirosa?
	No, agora voc  a minha doce italianinha.  Ele a beijou com carinho.  E ento? Vai telefonar para a sua me?
	No.
	No?  Ele a fitou espantado.
	Prefiro encontr-la pessoalmente para lhe dizer o quanto a amo. Temos muito o que conversar.
	Acho uma excelente ideia.  Ele voltou a beij-la.  J lhe disse que  uma mulher belssima?
	Acho... acho que sim  Carla respondeu emocionada.
	E a mais corajosa tambm. Adorei a maneira que enfrentou o Lucas.
	Se eu soubesse lutar carat, teria resolvido tudo rapidamente.
	Tenho certeza de que sim.  Finn a fitou intensamente nos olhos.  Voc me promete uma coisa?
	Qualquer coisa, querido. Me diga: o que quer que eu lhe prometa?
	Bem, voc tem que me prometer, tem que jurar que no vai me abandonar no altar.
Ela deu uma gargalhada.
	Do que voc est rindo?  Finn quis saber.
	Essa promessa  voc quem tem que fazer a mim. Mas quero que saiba uma coisa, Finn Cormac, se ousar me deixar no altar, juro que o encontro em qualquer parte do mundo.
	Isso  uma promessa?  ele brincou.
	No, no  uma promessa. E uma ameaa!
	Ento, acho que vou deix-la no altar s para poder ser caado por voc.
	No brique com coisa sria, Finn.
		Tudo bem, me desculpe.  Ele sorriu.  Agora me abrace forte e diga que me ama.
Carla o abraou.
	Eu te amo. Te amo como nunca pensei amar algum na vida.
	Eu tambm te amo, Carla. E prometo que vou fazer de voc a mulher mais feliz do mundo.
Ela o fitou com um olhar maroto e props:
	Ento, que tal comear agora?
Finn, ento, a ergueu nos braos e a colocou sobre a cama. Naquele momento, para os dois, se iniciava a experincia mais sublime que pode acontecer entre dois seres que se amam: o total reconhecimento, a total intimidade, a entrega.

FIM
